O Partido Social Democrático (PSD) antecipou a definição de sua candidatura presidencial para as eleições de 2026, conforme anunciado em 10 de março de 2026 por seu presidente, o ex-prefeito Gilberto Kassab. A decisão, conforme reportado pelo Correio Braziliense, reflete o reconhecimento de que "o espaço para uma terceira via na disputa presidencial está se fechando rapidamente". A legenda abriga atualmente três nomes com pretensões presidenciais: os governadores Ratinho Júnior (Paraná), Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) e Ronaldo Caiado (Goiás).
A antecipação da escolha visa solucionar o "trilema" enfrentado por Kassab, sintetizado pela máxima política "quem tem três candidatos não tem nenhum". Segundo a reportagem, sem uma definição, o partido perde votos e inviabiliza um projeto de alternativa de poder. A necessidade da mudança se tornou evidente após a divulgação de uma "nova pesquisa Datafolha sobre a corrida presidencial". O levantamento mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva com 46% das intenções de voto em um eventual segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que registra 43%, "configurando empate técnico dentro da margem de erro". Essa diferença numérica confirmaria "a tendência de que o país volte a se estruturar eleitoralmente em torno de dois polos claros".
Os números do primeiro turno da pesquisa Datafolha reforçam essa tendência. No cenário de potencial de votos testado, Lula aparece com 41%; Flávio Bolsonaro com 18%; Ratinho Júnior com 12%; Ronaldo Caiado com 7%; e Eduardo Leite com 3%. O esforço de Kassab visa evitar o "voto útil" do dia da eleição, no qual eleitores migram para candidaturas que se apresentam como "reais alternativas de poder". A avaliação de risco levou Kassab a antecipar a escolha, pois "com três candidatos, será impossível um deles sobreviver". O escolhido será determinado pelo "desempenho nas pesquisas e da capacidade de articulação política", sem a realização de prévias pelo partido.
Ratinho Júnior (governador do Paraná desde 2019), Ronaldo Caiado (governador de Goiás, disputou presidenciais de 1989) e Eduardo Leite (governador do Rio Grande do Sul, ex-prefeito de Pelotas) são os três nomes do PSD. O Correio Braziliense contextualiza que a dificuldade para viabilizar uma terceira via não é nova, citando o fracasso de tentativas em 2022, como a de Simone Tebet (MDB), que aceitou cargo de ministra após apoiar o atual governo.
A antecipação da definição de uma candidatura presidencial, como a do PSD para 2026, é apresentada na narrativa factual como uma manobra estratégica inevitável diante de um cenário eleitoral que se "fecha rapidamente". No entanto, essa interpretação meramente tática omite uma análise mais profunda das causas estruturais que consolidam um sistema político dualista no Brasil. A premissa de que o país "volte a se estruturar eleitoralmente em torno de dois polos claros" não é um dado natural, mas sim o reflexo de um sistema que impede a democratização do debate público e a emergência de projetos políticos verdadeiramente alternativos, focando-se em personalidades em detrimento de plataformas programáticas que poderiam enfrentar as profundas desigualdades.
Essa lógica da "viabilidade eleitoral" acima da representatividade programática revela assimetrias de poder intrínsecas ao modelo democrático brasileiro. A prioridade dada ao "desempenho nas pesquisas e da capacidade de articulação política" em detrimento de prévias partidárias para a escolha de um candidato, por exemplo, corrobora a tese de Jessé Souza sobre a captura do sistema político por uma elite que opera à margem da participação popular. O foco em evitar o "voto útil" do dia da eleição, sem questionar as razões pelas quais eleitores se veem compelidos a escolhas limitadas, denuncia a fragilidade de um debate político que não consegue ir além da gestão de candidaturas para propor uma verdadeira redistribuição de poder e recursos. Essa dinâmica impacta diretamente os estratos sociais mais vulneráveis, cujas pautas dificilmente encontram ressonância em uma disputa centrada em nomes e arranjos de cúpula.
A dificuldade em viabilizar uma "terceira via" não reside apenas na falta de um nome forte, mas na própria conformação de um sistema que restringe a capacidade de agenciamento político de grupos que poderiam desafiar o status quo. Como bem demonstrou Thomas Piketty, a concentração de riqueza e, consequentemente, de poder econômico, tende a moldar o campo político, dificultando a emergência de forças que proponham políticas públicas inclusivas e de equidade. A "sobrevivência" de um candidato torna-se uma questão de capital político e financeiro, em vez de um reflexo de adesão a projetos que visem transformar as condições estruturais de desigualdade. Essa limitação do espectro político impede que as discussões sobre direitos fundamentais e o combate à vulnerabilidade social ganhem o protagonismo necessário, relegando-as à periferia do debate eleitoral.
Para superar essa estagnação, seria imperativo ir além da mera disputa eleitoral e fomentar a construção de uma esfera pública mais robusta, onde a participação popular seja genuína e as vozes dissonantes sejam acolhidas, não silenciadas pela lógica da bipolarização. Uma alternativa verdadeiramente progressista passaria pela democratização interna dos partidos e pela valorização de plataformas que proponham reformas estruturais na economia e na sociedade, tais como a reforma tributária progressiva, a ampliação do acesso a serviços públicos de qualidade e o fortalecimento de mecanismos de controle social. Somente assim a política deixaria de ser um jogo de xadrez entre elites e se tornaria um instrumento efetivo para a construção de uma sociedade mais justa e equitativa, refletindo a visão de Nancy Fraser de que a política deve ser um espaço de luta por reconhecimento e redistribuição para todos os cidadãos.
Terceira Via na Política Brasileira: Prudência e Bem Comum
A discussão sobre a viabilidade de uma "terceira via" na política brasileira, com a antecipação da definição de candidaturas presidenciais por partidos como o PSD, transcende a mera análise tática eleitoral. Revela uma tensão intrínseca à vida política moderna: a busca pela eficácia pragmática em face de um cenário polarizado versus a aspiração por uma representação mais profunda e programática. Esta encruzilhada, longe de ser um fenômeno isolado, espelha um desafio perene sobre como a ação política pode, de fato, servir ao bem comum em sociedades complexas.
Estratégia Partidária vs. Debate Político Profundo
É inegável que a estratégia partidária se faz necessária. A realidade das pesquisas e a dinâmica do "voto útil" são elementos que líderes políticos prudentes não podem ignorar. O "trilema" de ter múltiplos candidatos em um único partido, por exemplo, é uma preocupação legítima para a coesão interna e a projeção externa. Contudo, reduzir a política a um jogo de xadrez de probabilidades e articulações, onde a "sobrevivência" de um candidato é o critério último, desvia-nos de uma reflexão mais profunda sobre a saúde da nossa esfera pública. Tal perspectiva, como nos alertaria Alasdair MacIntyre, tende a transformar o debate político em uma disputa de vontades e interesses, desprovida de um telos moral comum ou de um acordo substantivo sobre o que constitui a vida boa para a comunidade.
Polarização e Agência Humana na Política
A crítica de que o sistema se estrutura em polos em detrimento de uma pluralidade programática é, de fato, uma preocupação que merece nossa atenção. A concentração de poder, seja ele econômico ou político, e a dificuldade de novas ideias e projetos ascenderem, podem gerar um ciclo vicioso de desengajamento e cinismo. No entanto, a resposta a essa questão não pode ser uma mera condenação abstrata das estruturas, ignorando o papel da agência humana e da virtude. Edmund Burke nos lembraria que a sociedade não é um contrato abstrato, mas uma parceria entre gerações, um organismo complexo que se desenvolve gradualmente, e que reformas radicais desprovidas de prudência podem ser mais destrutivas do que construtivas. A "terceira via" que realmente importa não é apenas um nome no pleito, mas uma via virtuosa de engajamento cívico.
A Política como Meio para o Bem Comum e o Desenvolvimento Humano
Da perspectiva da lei natural e do bem comum, a atividade política tem como fim a promoção das condições necessárias para o pleno desenvolvimento humano. Isso exige que os partidos, enquanto ferramentas legítimas da democracia, elevem seu propósito para além da mera disputa pelo poder. A prudência (phrónesis), como virtude central de Aristóteles, é a capacidade de discernir o meio-termo adequado na ação, de buscar o que é bom para a comunidade em cada circunstância concreta. Isso significa que, enquanto a estratégia eleitoral é um aspecto da prudência prática, ela deve estar subordinada a um bem maior: o florescimento da sociedade como um todo. A verdadeira "viabilidade" de uma candidatura, portanto, deveria ser medida não apenas pelas pesquisas de intenção de voto, mas pela sua capacidade de inspirar e mobilizar os cidadãos em torno de princípios éticos sólidos.
Superando a Polarização: Responsabilidade Cívica e Subsidiariedade
A solução para a polarização e a aparente falta de alternativas não reside primariamente em uma revolução estrutural imposta de cima para baixo, mas em um cultivo da responsabilidade cívica e da solidariedade que se manifesta de baixo para cima, conforme o princípio da subsidiariedade. O fortalecimento de associações intermediárias, de comunidades locais, e a promoção de uma cultura política que valorize o diálogo respeitoso e a busca da verdade, são os verdadeiros pilares de uma democracia saudável. Os partidos políticos teriam, então, a missão de não apenas selecionar candidatos, mas de formar lideranças que encarnem esses valores, que sejam capazes de propor políticas fundamentadas na dignidade humana e que estimulem a participação cidadã ativa.
Redefinindo a Essência da Prática Política com Virtude
Assim, a verdadeira superação do dilema da "terceira via" eleitoral não reside em simplesmente encontrar um candidato carismático que se posicione entre os extremos, mas em redefinir a própria essência da prática política. Trata-se de construir uma cultura política que seja permeada pela virtude, pela lei natural e pela busca incansável do bem comum. Isso implica que partidos e líderes devem priorizar a formação de consciências, a promoção do debate substantivo sobre os desafios sociais e a articulação de propostas que, mais do que satisfazer pesquisas de curto prazo, visem a edificação de uma sociedade mais justa, solidária e equitativa, em que a liberdade seja sempre responsável e orientada para o verdadeiro florescimento de cada pessoa e da comunidade.
Fonte original: Correio Braziliense
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