A visão de uma criança enferma, presa aos fios e tubos de um leito hospitalar, recebendo o consolo inesperado de um animal de estimação — seja um cão fiel ou mesmo uma égua dócil que sobe por um elevador — comove a alma e faz brilhar a promessa de uma humanização necessária ao ambiente de cura. O projeto “Terapet”, implementado em Mogi Mirim, ecoa essa aspiração legítima de mitigar a solidão e o sofrimento, apelando à capacidade de um sorriso espontâneo ou de uma memória resgatada para aliviar a dura rotina de uma internação. A intenção de acolhimento é nobre, e a caridade para com os aflitos é um imperativo perene da Doutrina Social da Igreja. Todavia, a legítima ânsia por consolo não pode jamais eclipsar a mais fundamental das exigências de um hospital: a segurança universal e a justiça na administração do cuidado.
É aqui que a balança do juízo reto encontra a tensão entre o benefício visível e os riscos invisíveis, entre o apelo emocional e a responsabilidade institucional. A medicina, em sua essência, busca a cura, e nela, a dignidade da pessoa humana jaz no centro de todo esforço. Mas essa dignidade impõe uma ordem de bens: a proteção da vida e da saúde de todos os pacientes, especialmente os mais vulneráveis – imunocomprometidos, alérgicos ou aqueles com fobias incontroláveis –, não pode ser subordinada a um bem-estar emocional que, por mais genuíno, é seletivo e potencialmente arriscado. A iniquidade no acesso a essa “terapia” é uma preocupação real: a experiência de um paciente com um rottweiler ou uma égua não é replicável para todos, criando castas de beneficiários em um ambiente onde o tratamento deveria ser, tanto quanto possível, equânime.
A administração hospitalar, amparada que seja por uma lei municipal, deve ir além da letra fria e dos relatos anedóticos de sucesso. A verdadeira justiça social exige que se avaliem não apenas os ganhos subjetivos, mas também os custos objetivos: quais as métricas rigorosas da eficácia terapêutica para além do afeto? Qual o custo total, direto e indireto, de transportar um pônei para uma ala pediátrica, ou de gerir os complexos protocolos sanitários de múltiplos animais, em um cenário de recursos que, invariavelmente, são limitados? Pio XI, ao tratar da subsidiariedade, lembrou-nos que a boa ordem social exige que os corpos menores e intermediários floresçam em suas próprias esferas, com responsabilidade e sem que a centralização, ainda que bem-intencionada, sufra as soluções mais adequadas e menos dispendiosas, ou desvie o foco do essencial.
O psiquiatra que celebra o sorriso provocado por um cavalo tem razão em seu diagnóstico afetivo, mas é preciso que a humildade se faça presente na pretensão de universalizar um método sem a devida ponderação prudencial. Uma chamada de vídeo para um galo, como no caso da pequena Helena, pode ser imensamente mais eficaz e infinitamente menos custosa ou arriscada do que a presença física de um equino em um ambiente de alto risco. A busca por humanização não deve, portanto, resvalar para o espetáculo ou para uma estratégia de marketing emocional que prioriza a imagem em detrimento da substância do cuidado integral e seguro. A comunicação responsável, como ensinou Pio XII, exige a verdade completa, não apenas a parte que gera simpatia.
É papel do hospital garantir não apenas a segurança física, mas também a integridade moral do cuidado. Isso implica proteger o paciente em sua vulnerabilidade, dando-lhe voz para expressar desconforto ou recusa sem sentir-se insensível ou excluído. Implica ainda não sobrecarregar a equipe médica e de apoio com funções que desviam seu foco da missão principal de cura. A terapia assistida por animais, em seu lugar e com o rigor adequado, pode ser um valioso complemento. Mas a prudência e a justiça nos exigem que a benevolência não cegue o discernimento, e que o afeto não disfarce a necessidade de uma análise rigorosa e equitativa dos riscos e benefícios para todos.
A verdadeira humanização de um hospital reside menos no inusitado de um animal que cruza seus corredores e mais na dedicação silenciosa da equipe, na eficiência dos protocolos que protegem a todos e na capacidade de oferecer um tratamento que, além de tecnicamente excelente, seja profundamente justo e respeitoso da dignidade integral de cada vida ali confiada. A caridade bem ordenada não busca o aplauso fácil, mas a paz duradoura que nasce da verdade e da justiça.
Fonte original: globo.com
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.