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Tecnologia em Manaus: Inovação e o Risco da Exclusão Social

A ExpoPIM 4.0 em Manaus exibe avanços tecnológicos. Pela DSI, questionamos o custo humano e o risco de exclusão digital. A inovação deve ser universal, promovendo justiça social no Amazonas.

🟢 Análise

Entre os corredores lustrosos de um centro de convenções em Manaus, onde o futuro se anuncia em luzes de LED e telas sensíveis ao toque, o Instituto de Desenvolvimento Tecnológico (INDT) apresentou seu quinhão de promessas. Na ExpoPIM 4.0, desfilaram cursos de robótica para crianças, parcerias em cibersegurança industrial e projetos de bioeconomia que, na superfície, desenham um amanhã de progresso e vanguarda. Mas a lente da Doutrina Social da Igreja nos obriga a perguntar: para quem, exatamente, se constrói esse futuro, e qual é o custo humano de tamanha ambição?

A fachada de inovação esconde, para o olhar menos atento, algumas fissuras. É legítima a preocupação com a falta de clareza sobre os custos dos cursos da “Geração Maker”. A quem se destinam, de fato, aulas de impressão 3D e programação de jogos, senão a um segmento que já desfruta de condições econômicas privilegiadas? O discurso da “formação de profissionais do futuro” corre o sério risco de se converter em mais um fosso, alargando a distância entre uma elite digital e a imensa maioria da população amazonense, já carente de infraestrutura básica e educação fundamental. O que se anuncia como avanço, se não for universalizado, pode ser apenas a formalização de uma nova exclusão.

Aqui ressoa a voz de Pio XII, que distinguia entre o “povo” e a “massa”. O povo, organicamente unido por laços de subsidiariedade e solidariedade, possui consciência e responsabilidade; a massa é a multidão fragmentada, manipulável, da qual se esperam apenas reações previsíveis ou o consumo passivo das novidades. Quando o foco se restringe às “soluções para Indústria 4.0” e à “cibersegurança para indústrias”, corre-se o risco de relegar a maioria a uma condição de massa, sem voz ativa no seu próprio desenvolvimento, desconsiderando as necessidades estruturais e a realidade socioeconômica de base. A dignidade da pessoa humana exige que o progresso não seja um privilégio, mas uma plataforma para o florescimento de todos.

A justiça social, pedra angular da civilização cristã, exige que os benefícios do desenvolvimento sejam amplamente distribuídos. Não basta exibir projetos de bioeconomia sem questionar sua viabilidade em garantir equidade e sustentabilidade para as comunidades tradicionais, que não podem ser meros fornecedores de matéria-prima para a indústria de ponta. A ênfase no “fortalecimento da indústria” não pode ser equiparada, sem mais, ao “desenvolvimento do estado”, pois este último demanda uma visão holística que contemple o pequeno empreendedor, a família trabalhadora, a escola pública e o acesso à segurança digital para o cidadão comum, e não apenas para o grande capital.

É neste ponto que a humildade se faz virtude essencial. A soberba tecnocrática, que crê resolver todos os males com a chave da inovação e da eficiência, desdenha da complexidade humana e social. Chesterton, com seu paradoxo mordaz, alertaria para a “sanidade” de desconfiar de uma “loucura lógica” que, em nome de um futuro abstrato, esquece a realidade concreta do lar, do trabalho diário e das pequenas alegrias. A verdadeira sabedoria reside em construir pontes, não em cavar abismos, ancorando a tecnologia em um propósito maior que o lucro: a solidariedade. Que planos reais existem para subsidiar os cursos da “Geração Maker”, ou para estender a segurança digital básica a quem mais precisa nas periferias de Manaus ou nas comunidades ribeirinhas?

O desafio, portanto, não é demonizar a tecnologia — uma benção quando bem empregada —, mas ordená-la à finalidade humana e moral. A verdade que devemos buscar não se encerra nas métricas de parcerias e soluções desenvolvidas, mas no retorno social palpável, na inclusão efetiva, na redução das desigualdades. A cidade inteira, e não apenas o pavilhão da feira, deve ser a sala de aula cívica onde a educação por missão, transparente e acessível, prepara os jovens para serem não só “profissionais do futuro”, mas cidadãos virtuosos, capazes de edificar uma vida comum justa.

O verdadeiro progresso, afinal, não é uma corrida frenética aos pódios da inovação, mas a construção paciente de uma dignidade que floresce em cada casa, em cada vila, às margens de cada rio.

Fonte original: globo.com

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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