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SXSW: Sul Global, Realidade Geopolítica e a Ilusão de Ascensão

No SXSW, fala-se na ascensão do Sul Global. Mas este artigo alerta: não confunda o ânimo de um festival com a realidade geopolítica. Progresso exige mais que euforia, demanda ações concretas.

🟢 Análise

O South by Southwest (SXSW) em Austin, Texas, há quarenta anos se tornou um epicentro onde o futuro tecnológico e cultural, por vezes, anuncia suas primeiras notas. Foi lá que Twitter, Airbnb e Uber deram seus primeiros passos para a fama mundial, solidificando sua reputação de termômetro das tendências vindouras. Não é de se estranhar, portanto, que as observações de um cronista viajado sobre o evento se transformem em um mapa para a “nova ordem mundial”, com o “Sul Global” ascendendo e o “complexo de vira-lata” sendo, finalmente, deixado para trás. A urgência de diversificar os polos de inovação é uma preocupação legítima, claro, e qualquer sinal de autonomia e vigor vindo de regiões subalternizadas é bem-vindo. Mas há uma distância abissal entre a atmosfera de um festival e a reconfiguração estrutural do mundo.

A empolgação com a “confiança” dos empreendedores brasileiros ou a “perdição” dos americanos observada no SXSW, por mais que pintem um quadro vívido, corre o risco de confundir o mood de um evento com as raízes profundas da realidade geopolítica e econômica. Não se pode reduzir a complexa dinâmica global a uma sucessão de intuições de corredor ou a um diagnóstico categórico baseado em impressões subjetivas. O raciocínio tomista nos ensina a distinguir entre o ser aparente e o ser real, entre a percepção imediata e a verdade substancial que se revela pela análise das causas e dos efeitos. Afinal, a simples sensação de uma ascensão não significa, por si só, que as barreiras de infraestrutura, investimento em P&D ou a persistente dependência tecnológica tenham magicamente se dissipado.

Pio XII, em sua aguda análise sobre “Povo e Massa”, já advertia contra a superficialidade com que narrativas são consumidas. Um povo, para ele, é capaz de discernimento, de juízo reto, de sopesar os fatos e as aspirações; a massa, por outro lado, é suscetível a ser embalada por sentimentos e slogans que mascaram a verdade. Proclamar o “fim do complexo de vira-lata” é, no fundo, uma tentativa de construir uma nova identidade nacional através de uma retórica de empoderamento, que, se não estiver ancorada em fatos objetivos, pode se tornar apenas um novo tipo de excepcionalismo. A soberba ideológica não se cura com um mero autoengano invertido; exige a humilde aceitação da realidade e o trabalho árduo para transformá-la.

É o paradoxo dos nossos tempos: busca-se na “perdição” alheia a confirmação de uma ascensão própria, transformando o ocasional em tendencioso, o anedótico em prova cabal. O Chesterton bom de briga riria com ironia: se os “empreendedores americanos parecem mais perdidos”, talvez seja porque o mercado de invenções espetaculares amadureceu, ou porque buscam disrupções em áreas mais complexas e menos óbvias, e não porque a hegemonia de inovação subitamente evaporou. A sanidade está em reconhecer que a vitalidade de uma nação não se mede pela desenvoltura em um palco internacional, mas pela solidez de suas instituições, pela profundidade de sua educação e pela capacidade de seus cidadãos de construir, de forma sustentável, uma vida comum justa.

A verdadeira ascensão do “Sul Global” não virá de um otimismo efêmero, mas da veracidade em identificar seus próprios desafios e da laboriosidade em superá-los. O fim de qualquer “complexo” exige não uma retórica grandiloquente, mas investimentos concretos, políticas públicas inteligentes e a construção de uma cultura de excelência que não confunda a aparência com o progresso real. Um juízo equilibrado sobre a ordem mundial exige mais que o pulso de um festival; demanda a leitura atenta da complexidade humana e das realidades econômicas que, em silêncio, movem a história.

Fonte original: O Globo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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