A tapeçaria de Austin, anualmente tecida pelas mentes mais inventivas do South by Southwest, este ano parece desfiar-se em algumas pontas, desafiando a narrativa otimista de seus artesãos. Há 27 anos na organização, e há mais de uma década atuando como embaixadora do evento para o Brasil, Tracy Mann celebra o entusiasmo inabalável da delegação brasileira, que registrou queda marginal de inscritos (de 2.600 para 2.500) enquanto outros países, incluindo os Estados Unidos, viram declínios acentuados. É um feito, sem dúvida, num cenário de incertezas globais e mudanças no próprio formato do festival. Contudo, essa retórica vibrante e elogiosa, embora compreensível do ponto de vista promocional, não pode obscurecer as fissuras que ameaçam a integridade e a relevância duradoura do evento.
O centro de convenções em obras, a redução das datas e a segmentação do público em “bairros temáticos” não são meras inovações charmosas, mas reações a dificuldades estruturais e a uma busca por reinventar-se. A promessa de “conexões mais profundas” para quem não escolheu a experiência Platinum, forçando a circulação e o “viver Austin”, soa mais como uma justificativa para uma experiência fragmentada e potencialmente menos acessível. Soma-se a isso a questão da segurança: Austin, uma cidade onde se pode “andar com a arma na mão”, foi palco de um tiroteio recente, exigindo “providências mais assertivas” – mas o que significa isso, concretamente, quando a liberdade de portar armas já permeia a realidade local?
A Doutrina Social da Igreja, ao defender a ordem moral pública e a comunicação responsável (Pio XII), exige que a veracidade seja o esteio de toda e qualquer mensagem, acima de qualquer impulso promocional. É um dever edificar sobre a verdade, mesmo quando ela é complexa ou incômoda. Um evento que se posiciona como farol de inovação e diálogo precisa, mais do que nunca, de fortaleza para resistir às pressões externas que buscam moldar seu conteúdo. A fala da executiva sobre “grandes empresas de tecnologia” que adotam posições mais conservadoras e evitam temas “woke”, e a necessidade de “equilibrar” para “entender para onde o vento vai”, é um alerta. A busca por patrocínios não pode desvirtuar a vocação original do festival, transformando-o em eco de conveniências. O painel com o jovem palestino, por sua vez, um encontro que lotou em um minuto, é um exemplo da pauta sensível e humana que o SXSW deveria e precisa abraçar, reafirmando sua independência e relevância.
A mudança no protagonismo brasileiro, com estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul assumindo um papel mais proeminente, preenchendo o vácuo deixado por uma ApexBrasil talvez menos presente, é um movimento que pode ser lido sob a ótica da subsidiariedade (Pio XI). Fortalecer os corpos intermediários da sociedade é um bem. Contudo, essa descentralização demanda prudência e coordenação. Sem uma visão coesa e estratégica, a fragmentação pode diluir a força da presença nacional, transformando o “Brasil vai dominar” em uma colcha de retalhos de interesses estaduais, cada um competindo por seu quinhão de visibilidade, sem a potência de um projeto articulado para o bem de todos.
Chesterton, em sua sanidade contra a loucura lógica das ideologias, certamente questionaria a premissa de um arranjo que, ao fatiar a cidade em “bairros” para “tribos” e forçar a circulação pela “experiência de Austin”, promete paradoxalmente “conexões mais profundas”. A verdadeira conexão humana, afinal, surge da espontaneidade do encontro e do intercâmbio desimpedido, não da engenharia de um circuito temático ou de uma segregação de acesso. A “humanidade” que o Brasil traz, mencionada com gratidão pela executiva, floresce na liberdade, não na coerção de um formato.
A persistência brasileira no SXSW, portanto, não é apenas um atestado da nossa pujança criativa, mas um lembrete à organização de que a busca por uma “humanidade” no meio tecnológico exige mais que retórica e otimismo. Exige veracidade ao comunicar as expectativas, fortaleza para manter a independência de pautas e prudência na gestão das complexidades. A promessa de que “no ano que vem, tudo o que estamos aprendendo agora… já estará resolvido”, sem um exame honesto das raízes dos problemas, pode ser um desejo, mas não uma garantia de superação. É na capacidade de encarar a verdade, com humildade e coragem, que reside a verdadeira resiliência de qualquer grande evento ou nação.
Fonte original: Exame
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.