A alegria de uma mãe ao ver a filha superar um quadro de saúde gravíssimo é um júbilo que toca a alma, uma melodia de gratidão que se eleva acima de qualquer ruído. O relato de Chaiany, ex-BBB, sobre a jornada de sua pequena Lara Sofia, que hoje vive com um único rim após nascer com hidronefrose renal, é, em si, um testemunho comovente de fortaleza. A intervenção de um médico dedicado, Dr. Hélio Buson, e a acolhida do Hospital da Criança de Brasília pelo Sistema Único de Saúde (SUS), representam o melhor da compaixão e da capacidade técnica que o Brasil pode oferecer. A “salvação” da menina, com uma rotina normal apesar das restrições alimentares, celebra a vida contra todas as probabilidades.
Contudo, a fé não nos permite a cegueira diante do real, e a caridade exige que a alegria de um não mascare o clamor de muitos. A narrativa, embora inspiradora em seu desfecho, expõe uma ferida profunda na arquitetura de nossa saúde pública. A comoção que envolve uma figura pública, por mais legítima que seja, lança uma luz ofuscante sobre a verdade que jaz nas sombras: quantas Lara Sofias, sem o benefício da visibilidade, sem o acesso a redes de apoio, sem a sequência fortuita de eventos que culminou na intervenção cirúrgica de ponta, veem suas vidas se esvair na longa fila da espera ou na ausência de especialistas em suas regiões?
O fato de uma família, em seu desespero, cogitar vender uma propriedade rural – um bem fundante de sua subsistência e enraizamento – para custear um tratamento particular não é um detalhe menor. É um sintoma. Revela a percepção de desamparo, a lacuna de confiança no sistema que, em tese, deveria ser universal. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, defende a família como a sociedade primeira, anterior ao Estado, e a propriedade não apenas como um direito, mas com uma função social que lhe garanta estabilidade. Quando uma família se vê forçada a despojar-se de seu sustento para ter acesso a um direito fundamental como a saúde, é porque o arcabouço de justiça social está trincado. A subsidiariedade, conceito tão caro a Pio XI, impõe que o Estado deve apoiar e fortalecer os corpos intermediários e as famílias, e não suprir suas carências apenas em casos extremos e, por vezes, dependentes de uma intervenção quase milagrosa.
A justiça é a virtude que ordena as relações humanas e sociais, garantindo a cada um o que lhe é devido. É justo que o SUS ofereça excelência, como no caso de Lara Sofia. Mas a justiça exige que essa excelência não seja um privilégio de poucos ou um resultado da fortuna, e sim um direito garantido a todos. A questão não é saber se o sistema pode salvar vidas – este caso prova que sim, ele pode e o faz. A questão é: como o SUS pode garantir que a agilidade, a qualidade e o acesso a hospitais de referência sejam experiências universalizáveis, e não eventos dependentes de uma visibilidade pública ou de uma rara combinação de fatores?
Não basta celebrar a exceção; é preciso interrogar a regra. O que a história de Lara Sofia nos impõe, para além da legítima gratidão, é a advertência de que um sistema de saúde robusto e verdadeiramente equitativo não se mede pelos seus picos de excelência, mas pela linha de base do cuidado oferecido ao cidadão comum, àquele sem voz nem holofote. O destino comum de uma nação se manifesta na capacidade de seu sistema de saúde de acolher a todos com a mesma dignidade e solicitude, mitigando o desespero e garantindo o acesso ao tratamento sem que a venda de um pedaço de terra seja a última esperança de uma mãe.
O desafio está em transformar o “milagre” individual em política pública, a contingência em estrutura. A saúde de um povo não é uma loteria; é um dever.
Fonte original: TV Fama Oficial
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.