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SUS: Orgulho e Crítica na Saúde Pública do Brasil

Orgulho SUS: a celebração ignora fissuras. Analisamos filas, subfinanciamento e iniquidades. Um SUS mais justo e digno exige crítica construtiva e veracidade na saúde pública.

🟢 Análise

Um monumento pode ser erguido à grandeza de uma obra. Mas é na análise das fissuras, e não só no brilho do mármore, que se encontra a sua verdadeira história. No Dia do Orgulho SUS, a celebração fervorosa de um dos maiores e mais completos sistemas públicos de saúde do mundo ecoa por todos os cantos do Brasil. Não há como negar o gigantismo da empreitada: alcançar 213 milhões de brasileiros, realizar bilhões de atendimentos por ano, capilarizar a Estratégia Saúde da Família até as comunidades mais remotas, imunizar contra doenças outrora devastadoras e impulsionar a pesquisa nacional. É um ideal de universalidade e equidade, um patrimônio que, em princípio, reflete a alta vocação da caridade social.

Contudo, a paixão celebratória, quando unilateral, corre o risco de cegar. A retórica do orgulho, por mais bem-intencionada, pode se transformar em um véu que obscurece as legítimas e pungentes preocupações de milhões de brasileiros. As longas filas de espera para consultas especializadas e cirurgias eletivas, o subfinanciamento crônico que corrói a infraestrutura e os equipamentos, as gritantes disparidades regionais na qualidade dos serviços e a sobrecarga imposta aos dedicados profissionais de saúde são realidades que não podem ser varridas para debaixo do tapete. Ignorar estas feridas é, ironicamente, desonrar o próprio sistema que se busca louvar, pois a verdadeira força reside na capacidade de autocrítica e de superação.

Neste ponto, a distinção de Pio XII entre “povo” e “massa” é esclarecedora. O “povo” é uma comunidade orgânica, consciente de seus deveres e direitos, com vozes singulares e experiências concretas. A “massa”, por outro lado, é um agregado informe, manipulável por narrativas simplificadas, desprovido de juízo crítico e voz própria. Uma celebração que silencia as queixas legítimas de cidadãos que sofrem com a ineficácia do sistema, que não conseguem acesso a medicamentos de alto custo ou são vítimas de condições precárias, transforma o “povo” em uma “massa” a quem se impõe um orgulho que não corresponde à sua experiência. A verdade devida à pessoa humana exige que se ouça o seu lamento, não apenas que se exalte um ideal distante.

A justiça social, pilar da Doutrina da Igreja, demanda mais do que a proclamação de princípios. Ela exige a efetiva entrega de serviços que garantam a dignidade de cada indivíduo, desde o recém-nascido até o idoso em sua fragilidade. O SUS, com seu escopo, ambiciona ser um instrumento de justiça, mas onde as iniquidades persistem – na dificuldade de acesso para populações ribeirinhas, para pacientes com doenças raras, ou para os que dependem de uma infraestrutura que inexiste – a promessa não se cumpre. A virtude da honestidade, nesse cenário, é imperiosa. É preciso reconhecer que a universalidade e integralidade do sistema, embora um objetivo nobre, são ainda uma meta distante para muitos, e que a falta de transparência em dados ou a omissão de suas falhas apenas adia a solução.

O paradoxo, como nos ensinaria Chesterton, é que não há amor verdadeiro sem um olhar franco para a realidade. A paixão que impede a correção é um afeto que, no fundo, trai o objeto de sua devoção. O SUS não precisa de uma beatificação acrítica, mas de uma crítica construtiva, movida pela caridade e pela justiça, que o liberte de suas amarras e o impulsione para a sua plena realização. O orgulho sem veracidade é mera vaidade, incapaz de edificar.

O Sistema Único de Saúde é, sem dúvida, um baluarte de esperança para o Brasil, e sua existência é um testemunho da capacidade de uma nação de buscar a justiça para todos. Mas a construção de um sistema verdadeiramente equitativo e universal se fará não pela negação de suas sombras, mas pela fortaleza de enfrentá-las. Só assim a dignidade de cada pessoa humana será, de fato, o centro de sua ação e não apenas a bandeira de uma celebração.

Fonte original: Novo Momento

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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