O Irã nomeou Mojtaba Khamenei, filho do líder supremo recentemente morto, como sucessor de seu pai, segundo comunicado de clérigos do alto escalão publicado na mídia estatal na noite de domingo, 8 de março de 2026. O movimento sinaliza a continuidade do regime teocrático de linha dura enquanto ataques aéreos de Israel e dos Estados Unidos atingem o país.
Mojtaba Khamenei é descrito como um mistério até mesmo dentro do Irã, com poucas aparições públicas ou declarações conhecidas, mas assumirá a liderança religiosa, política e o comando das forças armadas do país. Vali R. Nasr, especialista em Irã e Islã xiita na Universidade Johns Hopkins, afirmou que "a escolha de Mojtaba é uma opção pela continuidade em relação ao pai, e também porque ele está mais preparado do que outros candidatos para consolidar o poder rapidamente e afirmar o controle sobre o sistema". Nasr acrescentou que Khamenei era considerado um sucessor há muito tempo, mas que "nos últimos dois anos, parecia ter saído do radar". Três autoridades iranianas de alto escalão, sob condição de anonimato, indicaram que Ali Khamenei havia dito a conselheiros próximos que não queria que seu filho o sucedesse, para evitar que o cargo se tornasse hereditário, o que contrariaria a promessa da Revolução Islâmica de 1979 de acabar com a transferência hereditária de poder.
A ascensão de Mojtaba Khamenei sugere que os círculos de poder iranianos, incluindo clérigos mais velhos, a Guarda Revolucionária e políticos influentes como Ali Larijani, chefe do Conselho de Segurança Nacional, "cerraram fileiras em um momento de crise aguda e guerra". Larijani e Khamenei são descritos como "velhos aliados e amigos" com influência nas forças armadas. Mehdi Rahmati, analista em Teerã, disse em entrevista que "Mojtaba é a escolha mais sensata agora porque ele está intimamente familiarizado com a gestão e coordenação dos aparatos de segurança e militares", adicionando que "Ele já estava encarregado disso". As forças de segurança mataram pelo menos 7 mil pessoas durante uma repressão, segundo grupos de direitos humanos. O governo iraniano informou que ataques aéreos dos EUA e de Israel mataram o pai de Mojtaba Khamenei, sua mulher, Zahra Adel, sua mãe, Mansoureh Khojasteh Bagherzadeh, e um filho.
Outros candidatos considerados para o cargo de líder supremo incluíam Alireza Arafi, clérigo e jurista que integrou o conselho de transição, e Seyed Hassan Khomeini, neto do pai fundador da Revolução Islâmica. Analistas apontam que Khamenei, por pertencer a uma geração de clérigos mais jovem e pragmática, poderia "ainda se inclinar para reformas". Abdolreza Davari, político próximo a Khamenei, sugeriu que ele "poderia emergir como uma figura ao estilo do príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman", afirmando que "Se existe alguém que poderia avançar em direção a algum tipo de redução do tom contra os Estados Unidos, é ele -- qualquer outra pessoa enfrentaria resistência da classe dominante e dos conservadores" e que "Ele pretende trazer mudanças estruturais". O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, declarou na terça-feira que muitas das pessoas que seu governo via como potenciais líderes do Irã "foram mortas desde o início dos combates", e que "Em breve, não conheceremos ninguém". Questionado sobre o pior cenário no Irã, Trump disse: "Acho que o pior cenário seria fazermos isso e alguém assumir que seja tão ruim quanto a pessoa anterior. Certo, isso poderia acontecer. Não queremos que isso aconteça."
A nomeação de Mojtaba Khamenei como sucessor do líder supremo do Irã, embora apresentada no contexto de uma grave crise e sob a justificativa da continuidade em tempos de guerra, revela um preocupante aprofundamento das assimetrias de poder e uma traição aos princípios de uma revolução que prometia abolir a sucessão hereditária. Longe de ser uma mera transição administrativa, este movimento sinaliza a consolidação de uma estrutura de poder intrinsecamente extrativista, onde a estabilidade do regime se sobrepõe à democratização e aos direitos coletivos da população. A ausência de transparência e o caráter opaco dessa escolha expõem uma elite decidida a perpetuar-se, custe o que custar à participação popular e à equidade.
A decisão de um círculo fechado de clérigos, militares e políticos de alto escalão, ao invés de um processo que legitimasse a vontade popular, é um sintoma claro das "instituições extrativas" que, conforme delineado por Daron Acemoglu e James Robinson, servem para canalizar recursos e poder para uma elite, em detrimento do desenvolvimento inclusivo da sociedade. A descrição de Mojtaba como uma figura misteriosa, com poucas aparições públicas, mas encarregado de aparatos de segurança, ressalta a lógica de controle e a supressão da accountability. A repressão brutal, que resultou na morte de milhares de pessoas, é a face mais visível dessa estrutura de poder que se impõe pela força, não pelo consentimento.
Este cenário levanta sérias questões sobre a distribuição de poder e os impactos sociais dessa escolha. Enquanto a elite busca garantir sua própria permanência e controle, o povo iraniano é confrontado com a negação de seus direitos fundamentais e a manutenção de um regime que prioriza a ordem interna ditada por poucos sobre as aspirações de liberdade e participação de muitos. A retórica sobre uma possível "reforma" por parte de Mojtaba, sugerindo uma aproximação ao estilo de Mohammed bin Salman, embora possa sinalizar mudanças superficiais, não aborda as profundas desigualdades estruturais nem a violência institucional que, como argumenta Silvio Almeida, marca a relação do Estado com seus cidadãos quando a dignidade humana é secundarizada em prol da manutenção do poder. As reformas genuínas não podem ser impostas de cima para baixo por uma elite sem legitimidade popular.
Para superar este ciclo de centralização de poder e repressão, é imperativo que o Irã se incline para uma verdadeira democratização das suas instituições. Isso implica um compromisso irrestrito com os direitos humanos, a garantia da liberdade de expressão e de associação, e a criação de mecanismos que assegurem uma participação popular autêntica na tomada de decisões. Somente por meio de políticas públicas inclusivas e da construção de um Estado que se baseie na equidade e na redistribuição do poder, e não na sua concentração hereditária ou militar, o Irã poderá trilhar um caminho em direção a uma estabilidade duradoura e uma justiça social plena.
Sucessão de Mojtaba Khamenei no Irã: Crise e Legitimidade
A recente sucessão de Mojtaba Khamenei no Irã, em meio a um cenário de profunda crise e hostilidades intensas, coloca em evidência um dilema perene da política: a busca por estabilidade em momentos de turbulência versus a promessa de uma revolução que aspirava a pôr fim à sucessão hereditária de poder. Este episódio, carregado de implicações para o futuro da nação persa, convida a uma reflexão mais profunda sobre as fontes da legitimidade política e os princípios que devem guiar a governança, transcendendo a mera dialética entre a necessidade prática e a demanda por transformação.
A Dicotomia da Sucessão: Continuidade vs. Crítica Popular
De um lado, a narrativa de continuidade e a escolha por uma figura com experiência nos aparatos de segurança pode ser interpretada como uma resposta pragmática à escalada de hostilidades. É compreensível que, em momentos de crise aguda, a tentação seja preservar a ordem existente e assegurar uma liderança capaz de manter as rédeas do poder, uma perspectiva que, em certa medida, ecoa a sabedoria de Edmund Burke ao alertar sobre os perigos de rupturas radicais e abstratas com a ordem estabelecida. Contudo, a contraposição a essa visão surge com força, revelando a inquietação legítima com a concentração de poder e a ausência de transparência no processo sucessório. A crítica à formação de "instituições extrativas" e à perpetuação de uma elite que se isola da participação popular ressoa como um grito por justiça e por uma distribuição mais equitativa do poder. A alegação de repressão e violência institucional é a face visível de uma estrutura que se impõe pela força, não pelo consentimento, denotando um desvio fundamental dos ideais de dignidade humana e da primazia do bem comum.
Filosofia e Doutrina Social da Igreja: O Caminho para o Bem Comum
É precisamente neste ponto que a filosofia clássica e a Doutrina Social da Igreja oferecem um caminho para a superação deste embate. Para Aristóteles, a finalidade da pólis e de qualquer forma de governo é a promoção do bem viver, da vida virtuosa de seus cidadãos. A boa política não se resume à mera manutenção da ordem, mas à criação das condições para o florescimento humano. Uma sucessão de poder, portanto, deve ser julgada não só pela sua eficácia em estabilizar um regime, mas sobretudo pela sua orientação ao bem do homem. São Tomás de Aquino, por sua vez, fundamenta a lei natural como o princípio que deve guiar toda legislação humana e toda autoridade política. A lei humana é justa na medida em que deriva da lei natural e é ordenada ao bem comum, ou seja, à soma das condições sociais que permitem a realização integral de cada pessoa. Uma liderança legítima reconhece sua autoridade como um serviço, e não um domínio arbitrário. O princípio da subsidiariedade adverte contra a centralização excessiva, defendendo que decisões sejam tomadas no nível mais próximo dos afetados, incentivando a participação e a responsabilidade de todos. Quando o poder se torna hereditário ou se concentra em um pequeno círculo sem mecanismos de *accountability* genuína, ele corre o risco de desviar-se de seu propósito último, tornando-se uma força para si mesmo, e não para o bem do povo.
Superando o Dilema: A Prudência no Serviço à Comunidade
A verdadeira superação deste dilema não reside em escolher entre a continuidade a todo custo ou uma democratização abstrata e imposta, mas sim em resgatar o sentido intrínseco da autoridade: o serviço à comunidade. A prudência, entendida como a virtude que orienta a razão prática para o bem agir, é indispensável. Ela exige dos líderes não apenas a capacidade de navegar pelas crises, mas a sabedoria de discernir o que é verdadeiramente bom para o povo e de implementá-lo por meios justos. Isso implica, mesmo em regimes não democráticos em seu sentido ocidental, uma abertura a formas de participação e representação que permitam que as vozes da comunidade sejam ouvidas e suas necessidades atendidas. A busca por reformas, como sugerido, deve ir além de meras mudanças estruturais para apaziguar tensões externas; deve ser um compromisso genuíno com a dignidade da pessoa humana e com a garantia dos direitos fundamentais. A estabilidade duradoura advém de um pacto social baseado na justiça e no reconhecimento mútuo, e não da imposição pela força.
O Propósito Eterno do Governo: Justiça e Paz Duradouras
Em última análise, o desafio iraniano, como tantos outros na história da política humana, é um convite a refletir sobre o propósito eterno do governo. A ascensão de um novo líder, seja ele parte de uma tradição sucessória ou de uma ruptura revolucionária, deve ser avaliada não pela sua conformidade a dogmas políticos externos ou pela mera conveniência em tempos de guerra, mas pela sua capacidade de se alinhar com a lei natural e de orientar suas ações para o bem comum de todos os cidadãos. Somente assim a continuidade se torna mais do que inércia, e a reforma mais do que artifício; ambas se convertem em instrumentos de uma política que serve à verdade e à dignidade intrínseca de cada ser humano, elevando o debate de mera disputa pelo poder a uma aspiração pela justiça e pela paz duradouras.
Fonte original: Estadão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.