Mojtaba Khamenei, de 56 anos, filho do aiatolá Ali Khamenei, foi escolhido pela Assembleia de Especialistas do Irã para suceder seu pai como líder supremo do país, segundo informou a mídia iraniana. A decisão ocorre mais de uma semana após o aiatolá Ali Khamenei ter sido morto em um ataque aéreo em 28 de fevereiro, em um conflito que também envolveu ataques aéreos entre EUA e Israel contra o Irã, os quais Mojtaba sobreviveu. A nomeação sinaliza a manutenção da linha dura no controle do Irã.
Aiatolá Mohsen Heidari Alekasir, membro do conselho, afirmou em vídeo no domingo que a seleção do candidato foi baseada na orientação de Khamenei de que o líder máximo do Irã deveria ser "odiado pelo inimigo". Ele complementou: "Até mesmo o Grande Satã (EUA) mencionou seu nome", referindo-se à declaração do presidente dos EUA, Donald Trump, que teria classificado Mojtaba como uma escolha "inaceitável" para ele. Mojtaba, nascido em 1969 na cidade sagrada xiita de Mashhad, acumulou poder sob o comando de seu pai, desenvolvendo laços estreitos com os Guardas Revolucionários (IRGC) e atuando como uma figura sênior próxima às forças de segurança e ao império de negócios por elas controlado.
Kasra Aarabi, chefe de pesquisas sobre o IRGC na United Against Nuclear Iran, uma organização de políticas públicas com sede nos EUA, observou: "Ele conta com uma base sólida e apoio dentro do IRGC, em particular entre as gerações radicais mais jovens". Mojtaba, que possui o posto clerical de Hojjatoleslam, nunca ocupou um cargo formal no governo, mas sua influência nos bastidores era notória, sendo descrito por fontes familiarizadas com o assunto como o "guardião" de seu pai. O Departamento do Tesouro dos EUA impôs sanções a Mojtaba em 2019, citando sua representação do líder supremo em "função oficial, apesar de nunca ter sido eleito ou nomeado para um cargo no governo".
Mojtaba serviu na guerra Irã-Iraque e estudou com conservadores religiosos em Qom. Ele se opôs a reformadores que buscavam engajamento com o Ocidente. Embora seu papel na política tenha sido uma fonte de controvérsia e alvos de críticas durante protestos de 2022, ele permaneceu um candidato significativo, especialmente após a morte do ex-presidente Ebrahim Raisi em um acidente de helicóptero em 2024. Mojtaba apoiou Mahmoud Ahmadinejad na eleição de 2009, resultando em protestos. Sua esposa, filha do proeminente linha-dura Gholamali Haddadadel, foi morta nos ataques aéreos do último sábado.
A escolha de Mojtaba Khamenei como sucessor do líder supremo do Irã, tal como relatado, é um sintoma eloquente da persistência de estruturas de poder que operam à margem de qualquer premissa democrática genuína. A narrativa de uma sucessão cuidadosamente orquestrada por uma "Assembleia de Especialistas", com base na orientação do antecessor e na aprovação de setores militares e financeiros, desvela um sistema fechado, avesso à democratização e à soberania popular, onde a legitimidade não emana do povo, mas de pactos internos de uma elite. Esta dinâmica, intrinsecamente antidemocrática, perpetua um controle que transcende a temporalidade e a vontade popular.
A ascensão de Mojtaba é um exemplo paradigmático de como as assimetrias de poder se solidificam. Alguém que "nunca ocupou um cargo formal no governo", mas detém influência por laços familiares e alianças com os Guardas Revolucionários e seu império de negócios, demonstra uma fusão entre poder político, militar e econômico que inviabiliza a fiscalização e a participação popular. Este arranjo corrobora a análise de Daron Acemoglu e James Robinson sobre "instituições extrativistas", que são concebidas para concentrar poder e recursos nas mãos de uma elite, em detrimento do desenvolvimento inclusivo e da equidade para a maioria da população. A justificativa de que o líder deve ser "odiado pelo inimigo" serve como cortina de fumaça para a ausência de uma legitimidade interna baseada no consentimento dos governados.
A profunda interligação entre o poder clerical, militar e econômico, com um indivíduo sancionado internacionalmente mas com influência nos bastidores, revela uma lógica de governança que esvazia os direitos fundamentais e qualquer possibilidade de redistribuição equitativa de poder. A vulnerabilidade social é acentuada para aqueles que, como nos protestos de 2022, ousam questionar esta estrutura. Como argumentaria Boaventura de Sousa Santos, a ausência de uma democracia de alta intensidade e a subjugação da esfera pública a lógicas de segurança e de interesse de facções internas comprometem a emancipação e a autodeterminação dos povos. O cenário descrito, portanto, não é de transição, mas de manutenção de um status quo que beneficia poucos em detrimento de muitos.
Para superar tais impasses, é imperativa uma ruptura com modelos de governança calcados na hereditariedade ou na cooptação. A construção de políticas públicas inclusivas e a real democratização das instituições exigem a ampliação da participação popular e a valorização da soberania dos cidadãos. Isso significa transcender a lógica de elites e facções para construir um arcabouço político que promova a equidade, a justiça social e a proteção irrestrita dos direitos humanos, garantindo que o poder emane, de fato, do povo e para o povo, e não de arranjos herméticos ou de imposições externas.
Sucessão no Irã: Poder, Legitimidade e o Bem Comum
A recente sucessão na liderança do Irã, tal como se apresenta, desvela não apenas um evento político de grande relevância geoestratégica, mas um palco para a reflexão mais profunda sobre a natureza do poder, da legitimidade e da finalidade da vida política. Em um mundo onde a complexidade das interações sociais e governamentais frequentemente obscurece os princípios fundamentais, é imperativo que voltemos à razão natural para discernir o que constitui um arranjo político justo e o que desvia a comunidade do seu verdadeiro telos.
As Preocupações com a Concentração de Poder
Não se pode ignorar a preocupação legítima expressa por aqueles que veem na ascensão de Mojtaba Khamenei um sinal de um sistema opaco, avesso à participação popular e à responsabilização. É um fato que a concentração de poder em mãos de uma elite, sustentada por laços familiares, militares e financeiros, levanta questões sobre a genuína representatividade e o risco de que os interesses de poucos prevaleçam sobre o bem-estar da maioria. A ausência de um processo transparente de legitimação e a aparente indiferença ao consentimento dos governados são, de fato, sintomas de uma fragilidade intrínseca a qualquer sistema que se afaste da busca pela justiça e pela ordem moral.
A Perspectiva Filosófica: Aristóteles e o Bem Comum
Contudo, a solução para tais impasses não reside na mera adoção de modelos democráticos abstratos, despidos de virtude e de prudência, como se a forma por si só garantisse a justiça. A crítica, embora pertinente em sua observação dos excessos, por vezes esquece a profundidade da política. A verdadeira questão, ensina-nos Aristóteles, não é meramente quem governa, mas como se governa, e, sobretudo, para que se governa. Um governo justo é aquele que se orienta pelo bem comum, procurando a felicidade e a realização integral de todos os cidadãos, e não apenas a satisfação de interesses particulares ou a perpetuação de uma oligarquia. A prudência (phrónesis), neste sentido, exige dos governantes a sabedoria prática para deliberar corretamente sobre os meios que conduzem a esse fim virtuoso.
A Autoridade Segundo Tomás de Aquino e a Lei Natural
São Tomás de Aquino, seguindo a tradição clássica, nos lembra que toda autoridade deriva de Deus e, portanto, deve ser exercida de acordo com a lei natural, que é a participação da razão humana na lei eterna. Isso implica que a autoridade política possui um limite moral intrínseco: ela não pode exigir o que é intrinsecamente mau, nem pode desrespeitar a dignidade inalienável da pessoa humana. Um regime que se funda na concentração de poder, na falta de responsabilização e na subjugação dos direitos fundamentais por uma elite, independentemente de se autodenominar teocrático ou republicano, falha em sua vocação de servir ao bem comum e, por conseguinte, carece de plena legitimidade moral.
Governança como Serviço: Doutrina Social da Igreja
A verdadeira superação do debate reside na compreensão de que a governança política é, antes de tudo, um serviço. A Doutrina Social da Igreja, ecoando esses princípios perenes, insiste na dignidade humana, na solidariedade e na subsidiariedade. Não se trata apenas de "democratizar" no sentido formal, mas de criar condições onde a vida em comunidade possa florescer, onde a liberdade responsável dos indivíduos seja protegida e onde as decisões sejam tomadas no nível mais próximo possível das pessoas que serão afetadas, garantindo-lhes voz e participação autênticas. A ausência de canais legítimos para a expressão da vontade popular ou para a responsabilização dos governantes, como aparentemente ocorre, não é apenas um problema de engenharia política, mas uma falha moral profunda que impede o florescimento humano.
Conclusão: Ordem, Virtude e Paz Social
Assim, a questão da sucessão no Irã, ou em qualquer nação, não pode ser reduzida a um mero embate entre tradição e modernidade, ou entre estabilidade e mudança. Ela nos convida a inquirir sobre a busca de um governo que, movido pela prudência e pela razão reta, promova a justiça, a equidade e o respeito à dignidade de cada pessoa. Somente um arcabouço político que sirva genuinamente ao bem comum, que encontre sua legitimidade não apenas em ritos de poder, mas na adesão aos preceitos da lei natural, poderá transcender as tensões superficiais e oferecer um caminho para a estabilidade e a verdadeira paz social. Afinal, como já nos advertia Edmund Burke, a liberdade deve ser unida à ordem para ser preservada, e a ordem deve ser virtuosa para ser justa.
Fonte original: ISTOÉ Independente
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.