O clamor que vem dos balcões da Secretaria da Saúde de São Paulo é um sinal perturbador que exige mais do que um ouvido atento: exige um discernimento rigoroso. A escalada vertiginosa nos atendimentos de saúde mental para crianças e adolescentes, com aumentos que se aproximam dos 200% em faixas etárias como a de 5 a 9 anos, não pode ser ignorada. Os números, em si, são fatos teimosos que gritam uma demanda crescente e um sofrimento real, especialmente evidente para internações e procedimentos ambulatoriais entre 2020 e 2025. É uma ferida aberta no corpo social, e a primeira caridade é reconhecer sua existência.
Contudo, a veracidade impõe uma pausa antes da corrida às conclusões. Embora o aumento dos atendimentos seja inegável, a interpretação desse fenômeno pede prudência. Seria um salto imprudente equiparar diretamente o crescimento do registro de casos com um incremento absoluto na prevalência dos transtornos. É preciso perguntar: quanto dessa alta reflete uma redução do estigma, um maior acesso aos serviços ou, talvez, uma ampliação da própria capacidade diagnóstica? Ou, na ponta mais incômoda, um hiperdiagnóstico ou a medicalização de variações normais do desenvolvimento? A resposta não é trivial, pois dela depende a reta ordenação dos recursos e das intervenções.
Os “especialistas” e “organismos internacionais” apontam, em tom hipotético, para a pandemia, as transformações tecnológicas, o uso de redes sociais e jogos online como possíveis culpados. Não há dúvida de que a tecnologia, quando não balizada pela reta razão e pela virtude da temperança, pode minar a concentração, suscitar ansiedade e isolamento, e pavimentar caminhos para o bullying. Pio XII, já em seu tempo, alertava para os riscos de uma mídia irresponsável e para a transformação do “povo” em “massa”, massa essa mais suscetível às influências externas e menos ancorada em si mesma. Mas limitar a complexidade do sofrimento infantil a esses fatores é um reducionismo perigoso, que desvia o foco de outras causas socioeconômicas, familiares e educacionais que podem estar na raiz do problema.
É aqui que o eixo da educação por missão, da transparência curricular e dos conselhos escola-família-comunidade, extraído de nosso próprio corpus, ganha relevância. A família, como sociedade primeira e insubstituível formadora da criança, é o primeiro e mais vital ambiente de cuidado e desenvolvimento. Fortalecer essa estrutura, garantindo que pais e educadores tenham as ferramentas e a liberdade para cultivar a virtude e a sanidade mental nos jovens, é um dever de justiça e caridade. A verdadeira “educação midiática” não se limita a ensinar a usar a tela, mas a desenvolver a capacidade crítica e moral para resistir aos assaltos de um mundo digital muitas vezes hostil à inocência.
A solução para a crise de saúde mental infantil não reside apenas em mais atendimentos — embora estes sejam urgentes para quem já sofre. Ela se encontra na coragem de olhar para o solo onde a semente da infância é plantada. Se o solo está árido, repleto de distrações nocivas, de ausência parental e de uma cultura que promete tudo e entrega vazio, não é de se espantar que as plantas adoeçam. A responsabilidade é difusa, sim, mas recai primeiramente sobre a casa, a escola e a comunidade.
A prudência, virtude que ordena os meios aos fins e o juízo reto à ação justa, exige que não nos percamos na retórica de uma crise generalizada, sem antes buscar uma compreensão profunda das causas reais e diferenciais. Exige que não se instrumentalizem as crianças, quer seja pelo hiperdiagnóstico, quer seja pela atribuição simplista de culpas. Acima de tudo, exige que o Estado, a escola e a sociedade sirvam à família, e não o contrário, na tarefa primordial de proteger e educar a alma infantil.
A verdadeira resposta está em restaurar a ordem moral pública e a dignidade da pessoa humana desde seus primeiros anos. Cuidar das crianças não é apenas mitigar seus sintomas, mas criar um ambiente onde elas possam florescer em corpo e alma, com o devido suporte familiar, educacional e cultural, livre da massificação e das imposições de uma tecnologia sem alma.
Que o crescente número de crianças em sofrimento não nos leve ao pânico estéril, mas a um compromisso inabalável com a verdade de sua condição e a um cuidado que cultiva a vida em toda a sua plenitude.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.