A verdadeira política pública, aquela que serve ao destino comum de uma cidade, não se contenta com a mera intenção virtuosa, mas exige a substância de um projeto bem fundamentado, transparente e eficaz. Lançar uma iniciativa para o bem da comunidade, sem antes assentar seus alicerces em diagnósticos claros e em um cálculo honesto dos meios e fins, é edificar sobre a areia.
Em Sorocaba, a Secretaria da Mulher celebra o lançamento do programa “Mulheres 40+”, anunciado com a linguagem sedutora da “promoção da saúde, autonomia e bem-estar”, focado em atividades físicas, capacitação e “empoderamento”. A descrição é ampla e generosa, prometendo uma “nova forma de viver a maturidade”. A boa vontade, aqui, parece ser o único lastro. Mas os fatos confirmados, por mais positivos que soem em seu verniz, revelam uma notável ausência de detalhes cruciais que distinguiriam um programa de Estado de uma simples peça publicitária.
A primeira questão que se impõe, sob a luz da justiça social de que falava Pio XI, é a da alocação de recursos. Por que mulheres “a partir dos 40 anos” constituem o público-alvo prioritário para um projeto com foco tão abrangente? Não se apresenta diagnóstico empírico, pesquisa ou consulta pública que justifique esse recorte etário específico como a demanda mais urgente ou distintiva a ser atendida pela municipalidade. Sem tal base, a escolha parece arbitrária, correndo o risco de segregar um grupo de mulheres com necessidades heterogêneas, enquanto outras faixas etárias ou vulnerabilidades mais agudas permanecem desassistidas ou com programas menos robustos. A simples afirmação de que “a maturidade apresenta desafios” não basta para justificar um investimento público sem detalhar quais desafios, quantas mulheres são afetadas e como as ações propostas serão mais eficazes do que os serviços já existentes.
A falta de honestidade intelectual se revela na lacuna de informações vitais: não há orçamento detalhado, metas mensuráveis, indicadores de sucesso, prazos de duração, número de vagas ou critérios claros de avaliação. Um programa público que se arroga o poder de definir “acolhimento psicossocial” ou “oficinas terapêuticas” sem prestar contas sobre a qualificação dos profissionais, a metodologia adotada e os resultados esperados, pode facilmente resvalar para a superficialidade. Pio XII nos advertia contra a tentação de tratar o “povo” como uma “massa”, e aqui vemos o risco de reduzir a complexa realidade das mulheres com mais de quarenta anos a um conjunto padronizado de “necessidades” e “soluções genéricas, ignorando a profunda diversidade socioeconômica, cultural e individual que há dentro desse amplo segmento da população.
A arte de governar, como bem nos recorda o legado tomista, exige um discernimento político que ordene os meios aos fins com clareza. Não basta empunhar bandeiras de “protagonismo feminino” ou “empoderamento” se a ação concreta não reflete a seriedade e a profundidade necessárias para transformar vidas. Um projeto que não articula como se integrará aos serviços de saúde, assistência social e capacitação profissional já estabelecidos no município corre o risco não só de criar redundâncias, mas de desperdiçar energias e recursos que poderiam fortalecer as redes já existentes, agindo em consonância com o princípio da subsidiariedade.
Em vez de uma “nova forma de viver a maturidade”, o que se apresenta, na ausência de dados e transparência, é a velha forma de prometer sem lastro. As intenções podem ser as melhores, mas a gestão pública exige mais do que um sorriso no palanque e uma frase de efeito. Exige a verdade dos números, a clareza dos métodos e a capacidade de provar o impacto real na vida das pessoas. Sem esses pilares, a edificação do bem-estar corre o risco de ser uma fachada vistosa, mas sem sustentação.
Que a vontade de servir às mulheres de Sorocaba se traduza em políticas que honrem a sua inteligência, a sua diversidade e o seu direito a um futuro construído sobre bases firmes, e não sobre as nuvens da mera proclamação.
Fonte original: Opinião e Notícia
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.