Quando a fome bate à porta, o pão que chega é uma graça concreta, um gesto que transcende a mera logística. É neste campo de necessidades urgentes que o Serviço Social do Comércio do Espírito Santo (Sesc-ES), em parceria com o Banco Ceasa-ES de Alimentos, faz uma obra de louvor. A inauguração da segunda unidade do Sesc Mesa Brasil em Cariacica, dentro da própria Central de Abastecimento, é mais do que um avanço operacional; é uma “engrenagem de solidariedade” que alcança dezenas de milhares de famílias e distribui toneladas de alimentos que, de outra forma, iriam para o lixo. Um esforço que, nas palavras de seus dirigentes, busca “transformar vidas” e garantir “dignidade” ao “colocar a pessoa no centro”.
Os números do Sesc Mesa Brasil no Espírito Santo impressionam: em 2025, o programa alcançou 35 municípios, distribuindo 1,9 mil toneladas de alimentos para 205 instituições, beneficiando mais de 60 mil pessoas. Com a nova unidade, espera-se um aumento de 20% na capacidade de arrecadação e distribuição. Esta é, sem dúvida, uma manifestação elogiável da virtude da caridade e da organização eficaz de um corpo intermediário, que responde a uma dor presente e evita um desperdício material e moral. A eficiência em resgatar “excedentes” e transformá-los em refeições dignas é um testemunho da capacidade humana de remediar o imediato.
Contudo, é preciso levantar a lente do olhar para além do prato que se enche, e questionar o banquete que não se faz. A celebração de um programa tão eficiente na gestão de “excedentes” e no combate à fome imediata pode, paradoxalmente, ofuscar a necessidade de confrontar as causas estruturais que geram tanto o desperdício quanto a insegurança alimentar. É a tentação do paliativo bem-sucedido: tão eficaz em mitigar o sofrimento visível que desvia a atenção da raiz do mal, normalizando um sistema que produz, ao mesmo tempo, abundância e carência.
A Doutrina Social da Igreja, inspirada por Leão XIII e desenvolvida por Pio XI, ensina-nos sobre a função social da propriedade e o princípio da subsidiariedade. Sim, é um dever de justiça que os bens da criação sirvam a todos, e que os “excedentes” não sejam desperdiçados enquanto há quem passe fome. E é correto que os corpos intermediários, como o Sesc, atuem quando as necessidades emergem. Mas a subsidiariedade também exige que a responsabilidade primária pelo bem comum seja assumida pelo nível mais adequado, e que as soluções busquem a autonomia, não a dependência perpétua. O fato de um “banco de alimentos ser o mais moderno do país instalado dentro de uma Ceasa” é um feito logístico, mas a pergunta permanece: por que nossa sociedade tão “moderna” gera tamanha necessidade de tais bancos?
A justiça não se contenta apenas com a distribuição de sobras; ela exige uma ordem que previna a geração massiva dessas sobras em face da penúria alheia. Ela clama por estruturas econômicas e sociais que garantam o acesso digno e autônomo aos alimentos, por meio de trabalho justo, distribuição equitativa e políticas públicas que promovam a soberania alimentar das famílias. A virtude da esperança não nos permite contentar com a gestão eficiente da miséria, mas nos impele a construir um futuro onde a necessidade de tais “excedentes” para alimentar os famintos seja drasticamente reduzida. Não basta gerir os sintomas; é preciso curar a enfermidade.
Assim, o trabalho do Sesc Mesa Brasil, por mais meritório que seja, deve ser visto como uma ponte, não como um destino. Deve ser uma força não apenas de assistência, mas de catalisação para que as políticas públicas assumam sua responsabilidade irrenunciável na segurança alimentar. Que este programa sirva de modelo para a organização, mas também de grito de alerta para que a “dignidade para as famílias carentes” não se restrinja à recepção de alimentos, mas se estenda à capacidade de produzi-los, de comprá-los e de escolher o que comer, conforme suas culturas e necessidades.
Não se trata apenas de nutrir o corpo, mas de semear um futuro onde cada mesa seja fruto de uma terra justa e de mãos autônomas.
Fonte original: Folha Vitória
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.