Um político brasileiro, em solo estrangeiro, não é meramente um turista ou um orador convidado; ele é, por ofício, a voz e o corpo de uma soberania. Quando essa voz cruza oceanos para solicitar que potências externas “monitorem” e “apliquem pressão diplomática” sobre as instituições de seu próprio país, algo fundamental se desordena. Não se trata de um debate de ideias ou de uma legítima busca por cooperação internacional, mas de um gesto que corrói o tecido da autonomia nacional, uma chaga na substância do que significa ser um Estado livre e digno.
Os fatos são claros: um senador, em evento conservador nos EUA, pede a estrangeiros que vigiem a “liberdade de expressão” e as “eleições justas” no Brasil, ao mesmo tempo em que acusa a USAID de interferência nas eleições passadas. As preocupações com a integridade do processo eleitoral e a defesa da liberdade de expressão são, em si, pilares inegociáveis de qualquer democracia. O combate a facções criminososas como o PCC e o CV, igualmente, é uma necessidade premente que demanda, sim, colaboração entre nações. Mas quando esses temas cruciais são instrumentalizados para deslegitimar internamente tribunais e urnas, ou para buscar tutela externa sob alegações sem provas – como as refutadas pelo Estadão Verifica sobre a USAID –, a nobreza das causas se desfaz em fumaça de oportunismo.
A Doutrina Social da Igreja, herdeira da reta razão e do ensinamento perene, sempre defendeu a soberania das nações como um bem precioso, um desdobramento da ordem natural das sociedades humanas. Leão XIII, em seu tempo, já nos advertia sobre a família como sociedade primeira, anterior ao Estado. Por extensão, a nação, como um corpo social de vinculações naturais e históricas, possui um direito inalienável à autogovernança e à resolução interna de seus conflitos. Quando um de seus filhos mais influentes, eleito para representá-la, suplica a um poder estrangeiro que intervenha na casa, ignora-se não apenas a Constituição, mas a própria dignidade do corpo político. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, nos lembra que nenhum poder, seja interno ou externo, deve arrogar para si uma primazia que esmague a autonomia dos corpos intermediários e, no limite, a da própria nação. A subsidiariedade, aqui, não é mera teoria, mas o princípio que exige que os problemas sejam resolvidos no nível mais próximo e competente, que é o da própria comunidade nacional e suas instituições legítimas.
A justiça, neste cenário, é duplamente ofendida. Primeiro, na ordem institucional, ao se subverter a confiança nos mecanismos de controle e decisão internos, como o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral. Segundo, na veracidade dos argumentos, ao se construírem narrativas de interferência e perseguição sem lastro factual, apenas para justificar a busca por um apoio externo que compense a fragilidade de suas próprias alegações. O espetáculo de um senador brasileiro, em solo estrangeiro, questionando a condenação de seu pai por tentativa de golpe de Estado, não fortalece a reputação do país; ao contrário, projeta uma imagem de instabilidade e irresponsabilidade que pode prejudicar a vida comum de todos os cidadãos. A honestidade intelectual exige que se apresentem provas e que se respeitem os ritos e decisões da Justiça, ainda que se possa legitimamente delas discordar por vias legais.
Chesterton, com sua perspicácia, diria que o mundo moderno está cheio de gente que, em busca de uma lógica perfeita, acaba por abraçar a mais pura loucura. É uma loucura lógica acusar de interferência um governo estrangeiro enquanto se roga a outro pela mesma interferência, disfarçada de “pressão diplomática”. A sanidade, aqui, reside na humildade de reconhecer que as feridas da casa se curam de dentro, e que a força de uma nação não está em sua capacidade de suplicar por ajuda externa para seus conflitos internos, mas em sua fibra moral e institucional para resolvê-los com discernimento político e adesão à verdade.
A promessa de “eleições justas” se constrói com a vigilância interna, com a participação cívica, com a transparência de seus órgãos e a imparcialidade de seus juízes, e não com a intervenção de potências de fora. O verdadeiro papel de um representante é defender a soberania de sua nação, e não abri-la à ingerência. A credibilidade de um país, e a paz social de seu povo, dependem da robustez de suas instituições e da lealdade de seus servidores à própria pátria.
A casa se sustenta pelos pilares que nela habitam e nela creem, não pelos que, à primeira brisa, correm a pedir que estranhos soprem mais forte.
Fonte original: O Liberal
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.