A convocação da seleção brasileira olímpica masculina de futebol, que por vocação deveria ser a flor mais vibrante de um jardim cuidadosamente cultivado, um testemunho do talento nacional que brota com vigor e unidade, revela um cenário que merece um olhar mais detido. Sob o comando do técnico André Jardine, o projeto para Tóquio 2020 agregou 23 jovens atletas, muitos deles com passagens por clubes europeus, duplas nacionalidades e, notavelmente, com valores de transferência que circulam na casa dos milhões. Essa ficha de fatos, objetiva em sua descrição, levanta, contudo, uma questão essencial: estamos montando um time ou um catálogo de mercadorias de alto valor?
A inteligência doutrinária católica nos adverte que o homem não é um meio, mas um fim em si. Quando São Tomás de Aquino nos ensina sobre a ordem dos bens, ele nos lembra que a pessoa humana possui um valor inalienável, superior a qualquer bem material. Transportando esse princípio para o campo de futebol, a preocupação legítima que emerge é se o atleta, em sua juventude e vulnerabilidade, não está sendo reduzido a um ativo financeiro, uma peça de câmbio no xadrez global do mercado da bola. A sucessão vertiginosa de transferências, os empréstimos e a pressão constante por desempenho em múltiplos contextos podem comprometer a saúde física e mental desses jovens, drenando a energia que deveria ser dedicada ao objetivo comum.
É certo que a experiência internacional confere maturidade tática e técnica, e a presença de talentos em ligas europeias é, por si só, um reconhecimento da qualidade do futebol brasileiro. Não se trata de negar a excelência individual de jogadores que se destacam lá fora. No entanto, a mera agregação de talentos individuais, por mais brilhantes que sejam, não forja uma equipe. Pio XII nos advertia sobre a distinção entre “povo” e “massa”: o primeiro é uma comunidade orgânica, unida por laços e propósitos comuns; a segunda, um ajuntamento disforme, facilmente manipulável e desprovido de coesão interna. Uma seleção olímpica, em sua curta e intensa trajetória, precisa ser um povo, não uma massa de craques em busca de nova vitrine.
A justiça, uma das virtudes cardeais, exige que os critérios de seleção transcendam a mera cotação de mercado ou a conveniência de um passaporte europeu. Ela demanda que se considere a formação integral do atleta, sua capacidade de integrar-se a um projeto tático e, acima de tudo, o valor de sua contribuição para o espírito de equipe. A temperança, por sua vez, nos convida a refrear o frenesi mercantil que tenta impor seus valores sobre o genuíno espírito esportivo. O cuidado com a representatividade do futebol nacional, com o desenvolvimento dos talentos que ainda atuam no Brasil e a gestão do desgaste físico e mental dos que já carregam o peso de uma carreira internacional intensa, são deveres que acompanham a responsabilidade da comissão técnica.
Portanto, o desafio da comissão de André Jardine não é apenas escalar os melhores, mas edificar um time coeso, resiliente e motivado pelo dever compartilhado de representar a nação. A montagem da equipe exige um discernimento que vá além das planilhas de valores e dos clubes de origem, buscando a harmonia que só uma real comunidade de propósitos pode oferecer.
A medalha olímpica não é apenas um troféu de metal; é a colheita de um projeto que soube cultivar seus talentos com justiça e temperança. É preciso, pois, que o futebol brasileiro olhe para além das cifras e dos passaportes, semeando um futuro onde cada atleta, por mais valoroso que seja, contribua para um jardim coletivo, belo e coerente, um verdadeiro povo em campo.
Fonte original: Estadão
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.