O campo de jogo onde a Seleção Brasileira se prepara para a Copa do Mundo não é apenas um gramado verde; é, antes de tudo, um palco moral. Nele se encena o perene drama da vontade individual e da subordinação ao bem comum, da retórica dos discursos e da dura prova dos fatos. Quando um dos nossos maiores talentos, Vini Jr., fala com entusiasmo de uma “ideia de jogo” coletiva sob a batuta de Carlo Ancelotti e do desejo de um “protagonismo de cada um”, ele acerta a nota principal de uma sinfonia que, para ser vitoriosa, precisa de todas as suas partes em harmonia, e não de um solista que ofusque o conjunto. Contudo, essa melodia da coesão é perturbada por uma dissonância antiga: a tentação de se apegar ao ídolo do passado, mesmo quando seu brilho, porventura, já não se alinha com a nova partitura.
É legítima a preocupação com a real capacidade de a equipe absorver uma proposta tática complexa em um tempo tão exíguo para um torneio de Copa, e com o risco de reincidir na dependência de talentos individuais, por mais luminares que sejam. A própria fala de Vini Jr., ao declarar-se “suspeito a falar” sobre Neymar e ao enaltecer o “maior artilheiro da maior seleção do mundo”, sem ponderar sua condição física atual ou sua real adaptabilidade ao esquema, revela uma ambiguidade que permeia a cultura futebolística brasileira. A afeição é humana, mas no governo de uma nação – ou de uma equipe que representa uma – o sentimentalismo não pode suplantar a reta razão e a exigência de veracidade na avaliação. Não se constrói um time com memórias, mas com a verdade do presente.
Aqui, o ensinamento do Magistério, especialmente o de Pio XII sobre “povo versus massa”, encontra um eco forte. Uma seleção não pode ser uma massa de indivíduos brilhantes, mas um verdadeiro povo, articulado e coeso, onde cada membro serve ao todo. A “ideia de jogo” de Ancelotti, por mais promissora que seja nos grandes clubes, requer mais que um mero anúncio; exige a laboriosidade de ser incorporada por cada jogador, a disciplina da repetição, o suor do ajuste fino. Sem essa entrega contínua, sem uma formação que transcenda o mero ajuntamento de estrelas, qualquer discurso de renovação corre o risco de ser apenas um belo castelo de areia diante da maré de uma Copa do Mundo.
A lição da eliminação de 2022, que Vini Jr. justamente define como um “momento muito triste”, não pode ser apenas uma lembrança passiva. Ela deve ser um motor para a justiça na tomada de decisões. É preciso que a comissão técnica, exercendo sua autoridade legítima, avalie cada jogador não pelo seu passado, mas pela sua condição presente e pelo seu encaixe tático no bem comum do time. A busca por “jogar com os melhores” deve ser entendida no contexto do que é melhor para a equipe neste momento, não apenas no que evoca o brilho de outrora. A honestidade sobre a real força da equipe, o “não somos os favoritos” que Vini Jr. vocaliza, ganha peso se for acompanhada de uma ação que reforce a coesão, não a dependência de figuras isoladas.
O projeto de Ancelotti, ao ser transplantado do Real Madrid para a Seleção, requer uma radicalidade pragmática. A grandeza de uma seleção, como a solidez de um edifício, não se mede pela altura de um único pilar, mas pela firmeza de seus alicerces e pela interconexão de todas as suas vigas. Descartar o legado é um erro, mas subordinar o futuro à nostalgia é uma irresponsabilidade. A Seleção Brasileira, ao almejar o protagonismo de cada um, precisa primeiro assegurar que cada parte esteja apta, no mérito e na disciplina, a servir ao todo. É um trabalho de poda e de cultivo, onde a clareza dos princípios e a retidão dos juízos devem guiar a mão do jardineiro, resistindo ao canto das sereias do passado.
Para que a “ideia de jogo” não se dissolva em retórica vazia, é fundamental que a equipe se construa com base na veracidade dos seus meios e na laboriosidade da sua execução. A vitória não será um prêmio de consolação por um passado glorioso, mas o fruto de um presente edificado com a força da justiça e a perseverança da honestidade. O verdadeiro espetáculo da Seleção não reside na reedição de glórias passadas, mas na coragem de construir um futuro em campo, com a verdade do suor e a justiça do mérito.
Fonte original: Esporte
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.