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Seleção Brasileira: A Crise da CBF na Gestão do Futebol Pós-2022

A Seleção Brasileira enfrenta crise de gestão pós-2022. Não é falta de talento, mas a descontinuidade de treinadores na CBF. Análise da instabilidade e busca por projeto sério.

🟢 Análise

A paixão nacional pelo futebol, em sua pureza mais elementar, repousa sobre a expectativa de uma orquestra afinada, de um time que, como um corpo coeso, move-se em sincronia rumo à vitória. Que se diga, sem rodeios, que o cenário atual da Seleção Brasileira destoa dessa melodia, apresentando um aproveitamento de 52,4% no período pós-Copa de 2022. Essa queda abrupta, que nos coloca na 39ª posição entre 48 seleções já classificadas para o Mundial de 2026, é um fato incômodo que, em qualquer outra esfera da vida pública, seria motivo para uma auditoria severa.

Mas os números, por mais eloquentes que sejam, são como a febre: um sintoma, não a doença. A obsessão pela métrica fria, divorciada da análise das causas, é um vício moderno que nos impede de enxergar a realidade. Não se trata, aqui, de um declínio genético do futebol brasileiro ou de uma súbita escassez de talento. O problema, grave e factual, é a falta de um projeto com cabeça e tronco, a ausência de um timoneiro firme no leme. Em menos de três anos, a Seleção teve quatro treinadores – Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti. Qualquer entidade, por mais robusta que seja, se desorienta com tamanha descontinuidade. Comparar este período errático com a solidez do ciclo Tite, que entregou 80,7% de aproveitamento em 50 jogos e uma Copa América, é misturar alhos com bugalhos. A Argentina, que lidera o ranking com 83,8%, soube cultivar a estabilidade de um comando técnico, e os frutos vieram.

A verdadeira questão, portanto, não é se a Seleção Brasileira está em crise de resultados, mas se está em crise de gestão e planejamento. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) tem a grave responsabilidade de zelar não apenas pelo desempenho em campo, mas pela ordem institucional que permite a este desempenho florescer. A sucessão vertiginosa de comandos não apenas submete jogadores a metodologias inconclusivas, mas frustra a expectativa mais legítima da torcida: a de ver um trabalho sério, com começo, meio e, sim, um tempo para maturar. É uma questão de justiça para com todos os envolvidos – atletas, comissões técnicas e a nação que torce – que se lhes ofereça um ambiente de trabalho estável.

A aposta em Carlo Ancelotti, um dos estrategistas mais vitoriosos da história, é o reconhecimento tardio de que a estabilidade é um pré-requisito para o sucesso. Contudo, é preciso honestidade intelectual para reconhecer que grande parte dos dados negativos reportados antecede a sua real capacidade de implementar um projeto. Julgar o Brasil pós-2022 sem distinguir as fases de interinidade, experimentalismo e, enfim, de um comando de longo prazo, é forçar uma narrativa simplista sobre uma realidade complexa. O frenesi por mudanças, em vez de acelerar o progresso, pode, paradoxalmente, paralisar o processo.

Um time de futebol não é uma massa inerte, mas um organismo vivo que, para ser um “povo” em campo, requer liderança clara e tempo para a coesão. A Doutrina Social da Igreja, ao defender os corpos intermediários e a subsidiariedade, ensina que a vitalidade de uma instituição depende da autonomia e da capacidade de seus membros de atuarem sob um direcionamento que lhes permita alcançar seu bem intrínseco. É um imperativo de responsabilidade que a CBF, como guardiã da seleção, ofereça as condições para que o futebol brasileiro reencontre seu caminho, investindo na paciência e na constância que a excelência exige.

A lição dos gramados é, também, a lição da vida comum: a verdadeira força não reside na instabilidade do improviso, mas na virtude da perseverança e na sabedoria de um planejamento bem executado. O Brasil tem talento, sim, mas talento algum prospera na areia movediça da desordem. O desafio da Seleção, mais do que técnico, é de gestão e de retidão prudencial na condução do bem maior que é a representação de um país em campo.

É tempo de superar a miopia dos números brutos e olhar para a causa real. O Brasil precisa, mais do que um novo treinador, de um projeto de nação dentro do campo, onde a justiça das condições de trabalho e a responsabilidade da liderança sejam a bússola que guie o navio de volta ao seu porto.

Fonte original: Diario de Cuiabá

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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