Poucos rituais civis em nosso país evocam tanta paixão e expectativa quanto a preparação da Seleção Brasileira para uma Copa do Mundo. A cada ciclo de quatro anos, o Brasil se converte num vasto seminário de tática, prognósticos e, sobretudo, esperança. Neste momento, com a Copa de 2026 no horizonte e os últimos amistosos se desenrolando, as palavras do técnico Carlo Ancelotti e do atacante João Pedro soam como um hino de confiança, mas um olhar mais detido revela certas dissonâncias que a reta razão e a veracidade exigem que sejam notadas.
Ancelotti, com a autoridade de sua vasta experiência, declarou que o “trabalho está finalizado” e que o equilíbrio, a “fantástica conexão entre talento e o aspecto defensivo”, será a marca da equipe. Para ele, a Copa do Mundo é vencida por quem “leva menos gols, não quem faz mais”. João Pedro, por sua vez, ecoa a grandeza da camisa ao afirmar que esta geração, com nomes como Vini Jr., Raphinha, Endrick, Estêvão e outros em “grandes clubes”, é comparável aos ídolos do passado – um atestado de que somos, ainda, a “maior seleção do mundo”. A escalação para a estreia estaria “bastante definida”, assim como a lista final de 26 atletas, incluindo o versátil Danilo.
Contudo, esta narrativa de prontidão e certeza esbarra em paradoxos evidentes. O próprio Ancelotti, no mesmo fôlego de sua confiança, admitiu que “muitas lesões” impediram o teste da equipe titular nos amistosos recentes, e que, embora tivesse “boa sensação” dos jogadores testados, reconhece que “alguns jogos foram muito bons, outros jogos um pouco menos” e que a equipe “temos que melhorar”. Onde reside, então, o “trabalho finalizado” se os ensaios cruciais foram abortados e a necessidade de aprimoramento ainda se impõe? João Pedro, que infla a expectativa ao comparar o elenco a lendas como Ronaldo, Ronaldinho e Romário, paradoxalmente reconhece que “faz tempo que o Brasil não vence uma Copa do Mundo” e, mais grave, que os atletas “vem se conhecendo mais” e têm “dificuldade de adaptação” entre si, dada a dispersão por ligas e estilos europeus.
Aqui, o Polemista Católico reconhece a tentação da retórica que tenta moldar a realidade à imagem do desejo. Chesterton, com sua sanidade contra a loucura lógica, riria da pretensão de declarar uma obra acabada quando as fundações ainda tremem e as peças do mosaico não se encaixaram plenamente. A humildade, virtude que nos lembra da nossa finitude e da necessidade do esforço contínuo, seria um bálsamo salutar contra o triunfalismo prematuro. A grandeza real de um time, como a de um homem, não reside na autocelebração, mas na honesta confrontação com as próprias fragilidades e na laboriosidade incessante para superá-las.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente na visão de Pio XII sobre “povo versus massa”, oferece um prisma útil para entender o desafio. Um amontoado de talentos individuais, por mais brilhantes que sejam, não constitui um “povo” no sentido de uma comunidade orgânica e coesa. A “dificuldade de adaptação” expressa por João Pedro revela que ainda se trata de uma “massa” de virtuoses em busca de se tornar um “povo”, uma unidade que transcende a soma das individualidades. Isso exige tempo, partilha e, sobretudo, a comunicação responsável da comissão técnica, que não deve iludir nem os atletas nem a nação com uma ilusão de prontidão.
Ainda sobre a estratégia, a ênfase de Ancelotti em “ganhar quem leva menos gols” é uma verdade parcial que, levada ao extremo, pode descaracterizar a identidade do futebol brasileiro. Não se trata de desdenhar a solidez defensiva, essencial para qualquer glória, mas de questionar a primazia absoluta sobre o talento ofensivo e a criatividade que sempre distinguiram nossa seleção. O equilíbrio não é a anulação de um polo pelo outro, mas a harmonização do ataque com a defesa, da arte com a disciplina.
O juízo final, portanto, é claro: a Seleção Brasileira possui um manancial de talentos, e a confiança em seu potencial é legítima. Mas a honestidade exige reconhecer que o “trabalho finalizado” é, na verdade, uma obra em andamento, e a “maior seleção do mundo” precisa provar essa premissa no gramado, não apenas nas entrevistas. A verdadeira força nasce da consciência lúcida das próprias lacunas e da dedicação inabalável para preenchê-las, sem o artifício de uma retórica que subestima o desafio. Não há glória genuína que não seja forjada na verdade da luta e na humildade da perseverança.
Fonte original: Tribuna do Norte
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.