A poeira que se levanta nas favelas do Rio de Janeiro, mistura de entulho e desesperança, não alcança as salas climatizadas da alta diplomacia. Nem deveria, em tese, anular os deveres da presidência em assuntos de Estado. Mas a distância entre a tragédia concreta do asfalto carioca e as cúpulas internacionais, por vezes, faz-se abismo no imaginário público, gerando a falsa impressão de uma escolha entre o dever distante e a miséria próxima. A captura de um vereador por conexão com o tráfico, ou a prisão de quinze policiais militares ligados a um bicheiro, não são meros incidentes; são os sintomas agudos de uma doença institucional que corrói a saúde da comunidade política. E, diante disso, a mera sugestão de que o chefe da nação “ignora” o drama em favor de contatos internacionais é tão perigosa quanto a inação real.
Não se trata de negar a importância da política externa. Um presidente tem o dever de tecer relações, de calibrar a posição do país no concerto das nações, e até de discutir a classificação de grupos criminosos transnacionais como o PCC e o Comando Vermelho no âmbito do terrorismo internacional, pois tais designações possuem peso estratégico e jurídico. A questão não é escolher entre telefonar para líderes estrangeiros e resolver o crime no Rio, como se fossem pratos de uma balança que se anulam. A verdadeira questão, à luz da justiça, é discernir as responsabilidades e exigir que cada nível de autoridade cumpra o seu inescusável dever.
A Doutrina Social da Igreja, através da clarividência de Pio XI em sua encíclica Quadragesimo Anno, insiste no princípio da subsidiariedade: aquilo que as instâncias inferiores podem realizar com eficácia e dignidade, não deve ser avocado por uma instância superior. No caso da segurança pública, a atribuição primária e operativa é, inegavelmente, dos estados. A União deve suplementar, coordenar e prover apoio, mas jamais suplantar a autonomia e a responsabilidade local, sob pena de gerar uma estatolatria que centraliza o fracasso. Os dramas do Rio — a sucessão de governadores depostos, a reeleição de um mandatário em meio a um cenário de caos, a fragilidade das forças de segurança cooptadas pelo crime — apontam para uma crise que se gesta e se agrava in loco, alimentada por uma corrupção que atravessa mandatos e alianças.
A veracidade exige que se reconheça que os problemas do Rio de Janeiro são de tal envergadura que não se resolvem com uma canetada federal, nem podem ser atribuídos a um único “ignorar” presidencial. São o resultado de décadas de falhas estruturais, de cumplicidade, de desinvestimento na formação cívica e na recomposição do tecido social. Quando Donald Trump manifesta a intenção de classificar facções criminosas brasileiras como terroristas, ele não está a “ignorar” o Rio, mas a reconhecer, de sua própria perspectiva, a dimensão transnacional do problema, que de fato possui ecos internacionais e exige cooperação multifacetada, não um isolamento complacente.
O que se exige, então, não é que o presidente da República troque a diplomacia pelo plantão policial, mas que todas as esferas de governo — federal, estadual e municipal — atuem com a justiça e a honestidade que lhes cabem. A polarização política que transforma cada crise em um palanque para o “quem ignora mais” ou “quem culpa melhor” é um desserviço à inteireza da vida social. Ela distrai do esforço contínuo e exaustivo de reconstrução institucional, de reforma policial, de transparência nas contas públicas e de educação para a virtude cívica.
A sanidade, como diria Chesterton em seu modo peculiar de desmascarar a loucura das lógicas tortas, não reside em criar uma falsa dicotomia entre o dever distante e a miséria próxima, mas em reconhecer a complexidade do real e a complementaridade dos esforços. A luta contra o crime organizado e a corrupção sistêmica não é um evento isolado, mas um cerco que exige a laboriosidade de todos os que detêm alguma parcela de autoridade legítima. Sem essa coordenação baseada na verdade e na justiça, a poeira das favelas do Rio continuará a obscurecer não apenas o horizonte, mas a própria noção de dever compartilhado.
A restauração da ordem não virá da retórica da culpa, mas da paciente e firme assunção de responsabilidades.
Fonte original: Folha de S.Paulo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.