A semeadura da inovação, hoje em dia, mais parece uma corrida de cavalos do que o cultivo paciente de um solo fértil. O Prêmio Sebrae Startups, com seu recente convite para a edição de 2026, apresenta-se como um grande arado, prometendo alavancar talentos e ideias por todo o Brasil. Os fatos são inegáveis: milhares de inscrições, conexões com investidores, premiações em dinheiro e o reconhecimento de projetos como o da Kinebot, que, de Curitiba, expandiu-se para 28 países com suas soluções ergonômicas de inteligência artificial. Há, sem dúvida, uma intenção meritória em fomentar o empreendedorismo nacional e dar visibilidade ao esforço de mentes criativas.
Contudo, mesmo a mais bem-intencionada iniciativa corre o risco de desviar-se da reta ordem se seus mecanismos não forem calibrados pela justiça e pela solidariedade. É preciso discernir entre o benefício superficial e o impacto estrutural. O Sebrae, com sua vasta rede, cumpre um papel fundamental ao mapear e estimular o ecossistema de startups, apontando para um crescimento de 20,5% no Paraná, por exemplo. A inclusão de bonificações para mulheres, negros, indígenas, PcDs e LGBTQIA+ no sistema de pontuação é um aceno necessário à complexidade da desigualdade, indicando uma preocupação legítima com a representatividade.
Mas é justamente nesse ponto que a tensão se revela. Se de um lado o prêmio celebra a diversidade, de outro, sua lógica de “vencedor leva quase tudo” erige um funil brutal. Três mil inscritos para apenas três finalistas, com a grande maioria colhendo pouco além da experiência de uma competição. A “intenção de investimento” e os valores de premiação, embora significativos para os poucos eleitos, são gotas no oceano das necessidades de um ecossistema que deveria florescer de modo difuso, e não em poucos arranjos de estufa. A distinção tomista entre potencialidade e ato nos lembra que a mera chance de ser notado não se equipara ao suporte real e distribuído para que a capacidade criativa de muitos se concretize. O problema não é premiar a excelência, mas a forma como essa excelência é selecionada e se os critérios acabam por padronizar o que deveria ser orgânico.
É aqui que a Doutrina Social da Igreja, particularmente a ênfase de Pio XI na subsidiariedade e na justiça social, nos oferece uma bússola. A subsidiariedade preceitua que as instâncias superiores devem auxiliar as inferiores sem, contudo, asfixiá-las ou usurpar suas funções. Ao concentrar os holofotes e o capital nas poucas “Top Startups”, o prêmio, a despeito de suas virtudes, pode inadvertidamente reforçar assimetrias e homogeneizar o ideal de inovação, moldando-o aos critérios de escalabilidade e impacto imediato que nem sempre correspondem às necessidades de longo prazo de um desenvolvimento integral e diversificado. Mais do que celebrar poucos campeões, um ecossistema sadio demanda nutrir uma vasta rede de “corpos intermediários”, de associações livres e iniciativas locais que se fortaleçam em sua própria esfera, sem a constante validação de um centro.
A humildade nos obriga a reconhecer que a complexidade das desigualdades sociais e regionais não se resolve com a adição de meros pontos percentuais numa avaliação. As bonificações, embora louváveis em sua intenção, podem ser paliativos diante de barreiras estruturais profundas que exigem políticas de fomento mais robustas, mentorias personalizadas e redes de apoio que atuem nas causas-raízes da sub-representação. Chesterton, em sua sanidade, provavelmente notaria o paradoxo de uma sociedade que almeja a criatividade desprendida, mas premia a conformidade a um modelo, transformando o que deveria ser um jardim em uma vitrine para espécimes cuidadosamente selecionados. A verdadeira vitalidade não reside apenas nos frutos mais vistosos, mas na diversidade e na resiliência de todas as plantas que compõem o solo.
O Prêmio Sebrae Startups é um esforço louvável que ilumina talentos e impulsiona algumas poucas estrelas. Mas, para que a inovação floresça verdadeiramente como um bem para a sociedade, e não como um novo palco para a concentração de capital e visibilidade, é imperativo que os mecanismos de apoio se voltem para a fecundidade da base, investindo em modelos de “propriedade difusa” da criatividade e na capilaridade do auxílio. A finalidade não é a competição por si mesma, mas o serviço ao homem e ao bem comum, que exige uma colheita mais farta e justamente distribuída para todos os que labutam na terra da imaginação.
Fonte original: Bem Paraná
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.