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Minas Gerais: Saúde Ausente no Interior, Criança Viaja Horas

Minas Gerais investe em saúde, mas falha no interior. Adriana viaja horas por neuropediatra ausente: o sistema prioriza números em vez da dignidade do paciente. A DSI exige justiça.

🟢 Análise

A vida de uma criança não pode ser medida em horas de viagem sob o sol de Minas, nem sua dor, catalogada como mais um “vazio assistencial” no mapa burocrático. A história de Adriana Gomes, que atravessa um estado para buscar o neuropediatra ausente em sua Ituiutaba, é a cifra cruel que desmascara a frieza dos números e a fragilidade das promessas. Enquanto o governo mineiro ostenta planos de integração digital, regionalização da rede hospitalar e um orçamento próprio que saltou para R$ 12 bilhões, a realidade no interior grita por socorro, por uma presença humana e especializada que não se resolve com teleconsultas nem com a distante burocracia do sistema.

É justo reconhecer o esforço em ampliar a infraestrutura, com novos hospitais e Unidades Básicas de Saúde, e a tentativa de regionalizar o atendimento. Há um louvável empenho em cobrir 98% da população com equipes de Saúde da Família e em otimizar processos. Todavia, a Doutrina Social da Igreja ensina que a justiça não se mede apenas pela intenção ou pela quantidade de recursos movimentados, mas pela sua efetividade em alcançar o bem da pessoa, especialmente do mais vulnerável. E aqui, a conta não fecha. Os R$ 62 por habitante/mês investidos pelo Estado são, como bem aponta o Conselho Estadual de Saúde, irrisórios diante das necessidades de uma população de 21 milhões, que inclui casos complexos e doenças raras.

O problema central não é de mera logística, mas de prioridade. A insistência em medir o sucesso por “cobertura” e “eficiência” digital, enquanto uma criança com microcefalia e epilepsia de difícil controle espera meses por um especialista local ou sua mãe precisa viajar 11 horas, revela uma falha grave na ordem dos bens. O bem primário é a saúde do paciente, e a dignidade humana não pode ser subsumida à abstração de uma “Rede Mineira de Dados”. São Tomás de Aquino nos lembra que a lei deve servir ao homem, e não o contrário. Um sistema de saúde, por mais moderno que se pretenda, que não consegue levar o médico ao enfermo grave no tempo devido, falha em sua função mais elementar de justiça.

A ampliação de Parcerias Público-Privadas (PPPs) e a dependência de hospitais filantrópicos, embora possam complementar o sistema, também levantam preocupações legítimas do ponto de vista da subsidiariedade e da transparência. O conselheiro Erli Rodrigues da Silva acerta ao questionar se o recurso terceirizado “não chega plenamente à população” e a “falta de transparência” no processo. A judicialização crescente – que consome quase R$ 1 bilhão por ano em Minas – não é um mero “gasto”, mas um sintoma agudo de que o sistema não está dando a resposta adequada. Por que, se a atenção primária resolve 80% dos problemas e a teleconsulta resolve 83% dos casos, ainda há tanta gente precisando acionar a Justiça para ter acesso ao que lhe é devido por direito?

A virtude da veracidade exige que olhemos para a realidade sem maquiagem. A Associação Tijucanna, que atende milhares de pessoas com recursos limitados e sem o apoio sistêmico que poderia ter, é um corpo intermediário que surge para preencher as lacunas que o Estado deixa. Sua existência, e a saga de Adriana, são o paradoxo vivo de uma “eficiência” que, no fim das contas, produz angústia e deslocamento. Não se pode reduzir a saúde a um aglomerado de números ou a um intrincado mecanismo sem alma, esquecendo que cada cidadão é um “povo” em si, portador de uma dignidade irredutível, e não apenas uma “massa” a ser gerenciada por estatísticas.

O verdadeiro desafio de Minas Gerais não é apenas construir hospitais ou digitalizar dados, mas sim enraizar a justiça e a caridade na ponta do sistema, assegurando que o cuidado chegue à pessoa, onde quer que ela esteja. Isso implica um investimento per capita que corresponda à complexidade real das doenças, uma estratégia eficaz de atração e fixação de profissionais especializados no interior, e uma transparência inegociável na gestão dos recursos, com a participação social ativa e deliberativa. Porque, no final das contas, o sistema existe para a vida, e não a vida para a glória do sistema.

O verdadeiro termômetro da saúde pública não são os gráficos de investimento ou as estatísticas de cobertura, mas o rosto sereno de uma criança atendida em sua própria terra.

Fonte original: Valor Econômico

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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