A cada estação fria, como um relógio que não avança mas se reinventa, Minas Gerais volta a pôr-se em prontidão para a enchente de doenças respiratórias. As medidas apresentadas pelo governo, com sua bateria de novos leitos, reforço de equipes e campanhas intensivas de vacinação, são, sem dúvida, respostas urgentes a uma realidade epidemiológica cíclica. Ninguém contesta a necessidade premente de dotar hospitais como o João Paulo II de mais capacidade e profissionais, ou de destinar R$ 15 milhões para sustentar uma operação que visa salvar vidas, especialmente as das crianças e gestantes, os elos mais frágeis da nossa corrente. A agilidade em colocar sete novos leitos de UTI em funcionamento “em poucas horas” e o investimento em novas vacinas atestam um esforço que, na hora da aflição, é bem-vindo.
Contudo, é preciso que a diligência na reação não oculte a exigência da reflexão. Quando a “antecipação” se torna uma resposta anual a um problema invariavelmente previsível, corre-se o risco de transformar a gestão da saúde pública numa rotina de apagar incêndios, em vez de edificar estruturas. A pergunta incômoda paira no ar: se o pico de doenças respiratórias ocorre “todo ano” entre março e maio, por que o sistema de saúde ainda opera sob a lógica da “antecipação de emergência” em vez de uma consolidação perene?
A Doutrina Social da Igreja, particularmente nas lições de Pio XI sobre a subsidiariedade e de Pio XII sobre a distinção entre povo e massa, oferece uma lente crucial para esse dilema. Um governo que se limita a gerir emergências, por mais eficaz que seja na hora do aperto, corre o risco de tratar seus cidadãos como uma massa a ser medicada, e não como um povo a ser fortalecido. A subsidiariedade ensina que o Estado deve apoiar e promover as iniciativas dos corpos intermediários e das comunidades locais, e não sufocá-las ou esperar que se desfaçam para então intervir com medidas centralizadas de última hora. A justiça social demanda uma distribuição equitativa dos encargos e dos benefícios, o que inclui a construção de uma infraestrutura de saúde que não seja apenas reativa, mas preventivamente robusta em todas as suas esferas.
O esforço em ampliar leitos no interior é um acerto, mas a verdadeira prova da resiliência de um sistema não reside apenas na capacidade de abrir vagas hospitalares quando a crise já bate à porta. Reside, antes, na solidez da atenção primária, na capilaridade da prevenção e na educação em saúde que evita que os casos se tornem graves. A laboriosidade e a responsabilidade de um Estado não se medem apenas pelo volume de recursos despejados em momentos críticos, mas pela continuidade do planejamento, pela estabilidade das equipes e pela transparência dos indicadores de desempenho que atestem o fortalecimento estrutural, e não meramente sazonal. Não basta gabar-se de que “hoje a capital não recebe mais aquela pressão de antes” se os dados que comprovam essa afirmação não são públicos e verificáveis, ou se essa “despressurização” é fruto de uma constante remodelação paliativa, e não de um crescimento orgânico e autossustentável da rede.
A falta de dados sobre a cobertura vacinal real e a ocupação dos leitos antes e depois das intervenções, bem como a ausência de um plano de longo prazo para a sustentabilidade da saúde mineira, transformam a narrativa da “estrutura muito mais preparada” numa afirmação que carece de um alicerce mais sólido que a mera declaração. É preciso ir além da retórica promocional e encarar a realidade com a seriedade que a dignidade da pessoa humana exige. A verdadeira segurança sanitária não se constrói apenas com a “antecipação” de uma crise já esperada, mas com a edificação de um sistema que sirva ao povo com constância e previsão, cultivando a saúde como bem inestimável e permanente.
Não se confunde a diligência de um governo com a perenidade de suas estruturas. A verdadeira saúde pública floresce na terra cultivada da justiça e da responsabilidade, não no solo árido das antecipações anuais.
Fonte original: O Cafezinho
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.