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Saúde Mental Infantil no SUS: Alerta de Medicalização

O aumento em saúde mental infantil no SUS de SP levanta: é acolhimento ou medicalização da infância? Analisamos causas, riscos e a visão da Doutrina Social da Igreja.

🟢 Análise

O alarme soou, e seu eco reverbera nas estatísticas. O aumento de quase 50% nos atendimentos de saúde mental para crianças de 5 a 9 anos no Sistema Único de Saúde (SUS) do Estado de São Paulo, entre 2023 e 2025, não é apenas um número; é um grito, uma fratura exposta no tecido social que deveria proteger a infância. Se, por um lado, há quem celebre o decréscimo do estigma e o maior reconhecimento de um sofrimento antes invisível, por outro, surge a incômoda pergunta: estaria a sociedade moderna, ao “descobrir” a fragilidade psíquica infantil, simplesmente medicalizando o próprio processo de amadurecimento e as reações a um ambiente crescentemente hostil?

Os fatos são claros: 1,2 milhão de atendimentos para essa faixa etária em 2025, superando todas as outras, e um crescimento de 8% nas internações. As causas apontadas pelos especialistas abrangem desde transtornos do desenvolvimento, como o Autismo (TEA) e o TDAH — condições cuja prevalência, embora crescente para o TEA, mantém-se relativamente estável para o TDAH na população, mas com mais diagnósticos —, até os males da vida contemporânea: uso excessivo de telas, má alimentação, insônia, e o inescapável estresse familiar e escolar. Crianças, em sua vulnerabilidade, absorvem os conflitos dos pais e a pressão da alfabetização e da nova rotina do Ensino Fundamental, sem o “jogo de cintura” dos adolescentes.

Neste cenário, a objeção de uma possível medicalização da infância adquire peso e exige escrutínio. Não se trata de negar a existência do sofrimento real, nem de fechar os olhos para os transtornos que demandam intervenção especializada. Mas é preciso discernir com argúcia: estamos, de fato, curando ou apenas rotulando e sedando a reação natural de crianças a um mundo desordenado? O risco é imenso: enquadrar comportamentos típicos do desenvolvimento ou reações a estressores ambientais como patologias, desviando a atenção das causas sociais e sistêmicas para uma patologização individual que, no limite, desresponsabiliza o ambiente e sobrecarrega a criança.

A Doutrina Social da Igreja, com seus pilares inabaláveis, oferece um farol. A dignidade da pessoa humana, em sua fase mais tenra, exige um olhar integral. O princípio da subsidiariedade, tão caro a Pio XI, brada que o Estado deve apoiar, e não suplantar, a responsabilidade primordial da família na educação e formação dos filhos. A família, anterior ao Estado, é a primeira e fundamental célula de cuidado. Quando o SUS apresenta gargalos de profissionais, especialmente psicólogos e terapeutas multidisciplinares (fonoaudiólogos, pedagogos, educadores físicos, professores de artes) – tidos como cruciais antes da intervenção psiquiátrica –, o perigo é que a escassez de recursos e a pressão por respostas rápidas impulsionem diagnósticos apressados e soluções farmacológicas, que podem ser um atalho perigoso e desproporcional.

Aqui, o Chesterton viria como um raio de sanidade contra a loucura lógica de nossa era. Seria um paradoxo da “razão” moderna, diria ele, que, ao invés de proteger o jardim da infância das pragas do excesso de telas e do estresse crônico, tenta medicar as flores que murcham, ignorando a toxina no solo. Não é o progresso diagnosticar cada criança irrequieta, mas antes restabelecer as condições em que a irrequietude possa ser meramente parte da alegria de existir. Não se combate a doença mental infantil com mais “vigilância” ou “encaminhamento”, mas com mais família, mais brincar livre, mais contato com o real e com a natureza, e menos massificação de estímulos digitais — uma crítica à mídia irresponsável que Pio XII já antevia.

A solução não pode ser meramente clínica ou burocrática. A virtude da temperança precisa ser resgatada: no uso das tecnologias, na dosagem das pressões escolares, na dinâmica familiar. A justiça exige que o Estado, por meio do SUS, não apenas contabilize atendimentos, mas garanta uma rede de suporte verazmente multidisciplinar, com foco na prevenção e em intervenções psicopedagógicas que antecedam a medicação. Isso implica em fortalecer a Atenção Primária à Saúde, investir em formação de profissionais especializados em saúde mental infantil e criar pontes efetivas entre as Unidades Básicas de Saúde, os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) e, crucialmente, as escolas e as famílias. Conselhos escola-família-comunidade e programas de educação parental sobre os riscos do ambiente digital, como proposto em nosso repertório interno, são mais urgentes do que a pressa por diagnósticos.

O aumento dos números é um espelho. Reflete, sim, a emergência de sofrimentos antes ignorados, e é justo que sejam acolhidos. Mas reflete também uma sociedade que, ao desordenar a vida comum, acaba por adoecer seus filhos, para depois se apressar em classificá-los. O verdadeiro avanço civilizatório não é o de somar diagnósticos, mas o de subtrair as causas do sofrimento, repondo a família no centro, a criança em seu tempo de brincar e a comunidade em sua função de sustento, para que o jardim da infância possa florescer em sua plenitude, com a serenidade que lhe é devida.

Fonte original: Terra

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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