Quando o Estado exalta o cuidado individual com o corpo, enquanto ignora o corpo social que o nutre, algo essencial se perde na aritmética da saúde pública. A atenção dedicada pela Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro à saúde do fígado das mulheres, com a devida exaltação da prevenção, da vacinação e dos exames de pré-natal, é um gesto louvável em si. Os fatos confirmados de que doenças como hepatites e esteatose progridem silenciosamente, de que as mulheres na menopausa ou com hábitos alimentares desregrados são mais vulneráveis, e de que o SUS oferece tratamento gratuito, são pontos de luz que merecem ser aplaudidos. A sra. Maria do Nascimento da Silva Pinto, com seus 76 anos e sua disciplina, personifica a virtude do zelo por si. Contudo, a sabedoria não se esgota no aplauso individual.
A virtude da justiça nos impele a olhar para além do indivíduo e a questionar se o aparato estatal cumpre sua parte na distribuição equitativa dos bens essenciais. É legítima a preocupação de que, ao focar intensamente na responsabilidade individual – “alimentação equilibrada, atividade física, evitar álcool” – a campanha possa inadvertidamente obscurecer as gigantescas barreiras estruturais que limitam a capacidade de vastas parcelas da população feminina, especialmente as mais vulneráveis, de seguir tais preceitos. Como exigir dieta rica em frutas e vegetais de quem mal consegue pôr o pão na mesa? Como esperar 150 minutos de atividade física semanal de quem vive em ambientes inseguros ou tem jornada dupla de trabalho e cuidado familiar?
A aquisição de um único aparelho de elastografia hepática, com investimento de R$ 670 mil, e sua centralização no Iaserj Maracanã, em meio a um estado de milhões, acende uma luz vermelha para o princípio da subsidiariedade, tão caro à Doutrina Social da Igreja. O Estado, ensina Pio XI, deve intervir não para suplantar, mas para auxiliar e coordenar o que as comunidades menores e as famílias não conseguem prover sozinhas. A concentração de um recurso diagnóstico de ponta em um só ponto geográfico, por mais estratégica que seja a unidade, cria uma assimetria de acesso que relega à distância, e à própria sorte, quem vive longe da capital ou carece de meios para a locomoção e a burocracia do encaminhamento. É uma solução tecnocrática que, sem uma estratégia de capilaridade e descentralização, falha em atender à realidade de um povo, transformando um avanço em privilégio de poucos.
Os números de gestantes com hepatites virais – 56 em 2024, subindo para 67 em 2025 – não podem ser lidos apenas como um indicativo da eficiência do pré-natal. Ao contrário, essa escalada clama por uma profunda investigação das causas subjacentes e por um exame de humildade por parte dos formuladores de políticas públicas. Um aumento nas notificações sugere, em parte, que as estratégias de prevenção primária, que deveriam atuar nas “raízes” da doença – como o saneamento básico, a educação sexual abrangente e a segurança alimentar – talvez não estejam sendo eficazes o bastante. Onde estão os programas que confrontam a onipresença de alimentos ultraprocessados, o marketing agressivo de bebidas alcoólicas e a precarização dos espaços públicos que impedem a atividade física?
A atenção às peculiaridades biológicas femininas é válida, mas um foco excessivo nelas pode desviar o olhar das construções sociais de gênero que igualmente moldam estilos de vida e exposições a riscos. Adicionalmente, o alerta sobre chás e suplementos, embora pertinente, exige a fineza de uma comunicação que não demonize práticas tradicionais indiscriminadamente, mas que eduque com base em evidências, diferenciando riscos reais de suposições. Afinal, como Chesterton nos faria notar, a sanidade está em equilibrar o olhar para o detalhe com a visão da totalidade, evitando a loucura lógica de quem tenta curar a folha seca sem jamais cuidar da terra que a alimenta.
A Secretaria de Estado de Saúde tem um papel insubstituível. Mas este papel não é o de um mero conselheiro individualista, tampouco o de um centralizador de bens preciosos, mas o de um gestor da ordem justa, que atua sobre as condições estruturais para que a boa vontade e o esforço individual possam, de fato, frutificar. A verdadeira saúde do fígado, e da na nação, florescerá quando a atenção ao indivíduo for inseparável da lavoura que prepara o solo para todos.
Fonte original: Home
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.