A notícia do maior mutirão de saúde para mulheres no Sistema Único de Saúde, prometendo 230 mil procedimentos em 885 hospitais por todo o país, surge como um remendo gigante e vistoso na trama social. É natural que o alívio imediato dos que esperam na fila seja celebrado. Contudo, o Polemista Católico precisa inquirir não apenas o que se mostra, mas o que tal espetáculo esconde sobre a verdadeira saúde da nação. Um curativo de grande porte não pode, por si só, ser confundido com a cura de uma doença crônica.
A grandiosidade do “maior mutirão já realizado” não é um triunfo, mas o sintoma mais claro de uma falha profunda e contínua. É a confissão implícita de que o sistema de saúde, em seu funcionamento ordinário, falhou em prover acesso justo e contínuo. A proclamação de que se oferece “atendimento que não havia antes” soa mais como uma ironia mordaz do que como uma verdade cabal, quando se sabe que boa parte desses procedimentos já são direitos, mas foram represados pela ineficácia da gestão. A veracidade exige que se distinga a mitigação emergencial da edificação sustentável.
A justiça social, alicerce da Doutrina Social da Igreja, clama por um sistema que não apenas responda a crises com picos de mobilização, mas que garanta um fluxo constante e equitativo de cuidado. O mutirão, ao priorizar pacientes “já agendadas”, expõe a seletividade e a iniquidade inerentes a soluções paliativas, deixando à margem aqueles que sequer conseguiram entrar na fila invisível dos desassistidos. O povo, como distinto da massa (Pio XII), anseia por uma saúde que lhe seja devida a cada dia, e não um alívio pontual que, passados dois dias, reverte-se na mesma espera penosa.
A oferta em massa de métodos contraceptivos de longa duração, como o implanon, dentro de um mutirão, ilustra essa lógica da quantidade sobre a integralidade. Embora apresentado como “moderno e seguro” para o planejamento familiar, a questão moral não se encerra na eficácia técnica. É preciso perguntar pela totalidade do cuidado: há garantia de acompanhamento, de acesso à remoção e à informação completa sobre todas as opções morais e clínicas, para além da janela de dois dias do mutirão? Um “planejamento familiar” verdadeiramente humano demanda respeito à temperança e à responsabilidade individual e institucional, com vistas à saúde integral da mulher, não apenas a um controle demográfico superficial.
A centralização e a promoção ostensiva dessa iniciativa correm o risco de resvalar numa estatolatria (Pio XI) que celebra a ação do Estado como única salvadora, em vez de questionar a debilidade da rede de base. A Doutrina Social da Igreja, que preconiza a subsidiariedade, nos ensina que a força de um sistema se mede pela vitalidade de seus corpos intermediários, pela capilaridade dos serviços locais, não pela capacidade de organizar eventos midiáticos. O silêncio sobre o custo total de tal empreendimento, e a ausência de um plano claro para evitar a reincidência das filas, revelam uma notável falta de transparência e honestidade na gestão dos bens públicos.
Não se trata de negar o auxílio provisório, mas de denunciar a ilusão de que se resolve o permanente com o excepcional. A verdadeira magnanimidade de uma nação não se manifesta na grandiosidade de um mutirão, mas na discrição e firmeza com que se edifica, dia após dia, uma rede de saúde que torne tais ações emergenciais desnecessárias. O destino de uma sociedade, afinal, não se joga na visibilidade dos remendos, mas na solidez invisível de um tecido social íntegro e justo.
Fonte original: Blog do Esmael
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.