O ar rarefeito de Cuenca, a 2.500 metros de altitude, não só exige mais dos pulmões, mas também do espírito. Foi nesse cenário que o Santos amargou uma derrota por 1 a 0 para o Deportivo Cuenca na estreia da Copa Sul-Americana, um resultado que, à primeira vista, pode parecer um mero tropeço ou uma falha pontual de um time que, em tese, deveria ser superior. No entanto, o placar magro e o gol olímpico de Mancinelli, aos 14 minutos do segundo tempo, escondem uma lição mais profunda do que a simples ineficácia na pontaria do ataque santista, que, de fato, criou chances, especialmente no início e no segundo tempo, mas não as converteu.
A tentação, na imprensa e nas rodas de torcedores, é reduzir o ocorrido a um ‘vexame’ do ‘grande’ diante do ‘pequeno’, uma narrativa simplista que ignora a realidade complexa do futebol continental. Nessa lente distorcida, a soberba se veste de análise, e a expectativa clubista sobrepuja a veracidade dos fatos. O esporte, como toda atividade humana, deve ser avaliado com base na realidade objetiva, e não em quimeras de superioridade pré-estabelecida ou em narrativas que transformam a verdade do jogo em mero espetáculo emocional. Pio XII já advertia sobre os perigos da massificação, que nivela por baixo a capacidade de discernimento e substitui a análise séria pela emoção bruta.
A altitude de 2.500 metros não é um detalhe folclórico, mas um dado físico que reconfigura a dinâmica de cada disputa, exigindo uma adaptação que nem sempre se processa em 90 minutos. O Santos, mesmo demonstrando ímpeto em alguns momentos, não conseguiu manter a intensidade em toda a partida, e essa inconstância pode ser lida não apenas como falha tática, mas como um custo real da adaptação a um ambiente hostil. O Deportivo Cuenca, atuando em seus domínios, com a inteligência tática de quem conhece o próprio gramado e o ar rarefeito, soube tirar proveito de suas condições e defender a vantagem com organização. Não se trata apenas de uma ‘falta de sorte’ ou de um ‘gol atípico’; trata-se de um adversário que jogou com a intensidade e a estratégia requeridas para vencer.
Chesterton, com sua perspicácia, diria que a verdadeira loucura é esperar resultados uniformes em condições desiguais, é imaginar que a ‘lógica’ dos grandes nomes por si só dobra a realidade. Há uma sanidade intrínseca em reconhecer que cada campo, cada clima, cada adversário apresenta um desafio único. Ignorar essas variáveis é cair na ingenuidade de quem crê que a tradição e o orçamento dispensam o esforço e a adaptação. A derrota santista, portanto, é um lembrete: no campo de batalha do futebol sul-americano, a história e o orçamento não garantem vitória automática. Cada jogo é um novo embate, onde o mérito é conquistado no suor e na estratégia, e não herdado por blasones.
É preciso, antes de tudo, cultivar a humildade de reconhecer o valor do outro e a veracidade de encarar os fatos como são, para que a ambição legítima de um clube não se transforme na soberba que precede a queda.
Fonte original: Correio Braziliense
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.