A seiva que irriga o vigor de qualquer corpo social, para ser vital e justa, deve correr por veias transparentes, alimentando todos os órgãos com equidade. O Santa Rosa, com sua ascensão meteórica da segunda divisão para a elite do futebol paraense, é, à primeira vista, um testemunho vibrante de gestão profissional e paixão esportiva. A história de como um clube centenário, à beira do esquecimento, foi reerguido e levado às quartas de final do campeonato estadual em tempo recorde, com um orçamento que se aproxima do milhão de reais por temporada, é, sem dúvida, inspiradora. A aposta num goleiro de renome, Felipe, que depois alçaria voos internacionais, e a afirmação de que a população abraçou o clube são elementos de um conto de fadas futebolístico que o dirigente David Merabet narra com visível orgulho.
No entanto, a beleza de um triunfo não pode nos cegar para a solidez de suas fundações. A narrativa de “gestão profissional” e de um “equilíbrio” financeiro mais próximo dos 90% de investimento próprio no passado, e hoje de um balanço mais justo, levanta preocupações legítimas sobre a verdadeira sustentabilidade e a equidade competitiva. A Doutrina Social da Igreja, ao sublinhar o princípio da subsidiariedade e a exigência da justiça social, nos convoca a ir além da superfície e a inquirir sobre a natureza dos fluxos que mantêm essa vitalidade. É paradoxal que, na busca por uma “gestão profissional” digna de aplausos, se dependa tanto de um modelo que carece da transparência e da pluralidade de fontes que definem a verdadeira robustez de um empreendimento duradouro.
O custo da folha salarial, disparadamente o maior componente, e as despesas operacionais detalhadas pelo dirigente – material esportivo, passagens, taxas para federação e CBF – são impressionantes. Mas a omissão de “luvas ou adiantamentos a jogadores” das contas iniciais, e a falta de detalhamento sobre a composição exata das receitas além do “bolso próprio” e do patrocínio estatal, deixam lacunas significativas. A afirmação de que o patrocínio do Governo do Estado é “crucial para que o campeonato tenha dificuldade para acontecer” é uma confissão que precisa ser encarada com a seriedade que a justiça exige.
Pio XI, em sua crítica à estatolatria, nos recordava que o Estado tem um papel de fomentar e apoiar, mas não de absorver ou controlar indevidamente as esferas intermediárias da sociedade. Quando o financiamento público se torna crucial para a existência de um campeonato ou de um clube específico, surge a inevitável pergunta sobre a equidade e a transparência na distribuição desses recursos. Quais são os mecanismos claros e auditáveis que garantem que todos os clubes, especialmente os pequenos e médios, tenham acesso a oportunidades justas, sem que a proximidade com o poder político ou a rede de contatos de investidores privados se tornem o principal critério de sobrevivência ou sucesso?
A dependência excessiva de poucos indivíduos ou do erário público, ainda que bem-intencionada, fragiliza o sistema como um todo. Torcedores, que investem sua paixão, e contribuintes, que financiam o Estado, merecem ver não apenas o brilho do espetáculo, mas a solidez das contas e a justiça das regras do jogo. A gestão profissional, para ser completa, deve buscar uma base diversificada de receitas – sócios-torcedores, bilheteria, patrocínios de mercado amplo, programas de formação – que garanta autonomia e minimize a vulnerabilidade a mudanças de humor de investidores ou de políticas governamentais. A veracidade não é apenas um valor ético; é um pilar da boa gestão e da justiça social.
A mera exibição de um sucesso em campo, quando suas fundações financeiras permanecem opacas e dependentes de fluxos singulares, trai a própria vocação social do esporte, que é construir, não apenas celebrar, uma comunidade justa e autônoma em seu florescimento.
Fonte original: O Liberal
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.