Salvador, em seus 477 anos, projeta-se para os 500 com o brilho sedutor da “Smart City”. As palavras resplandecem: “humana”, “conectada”, “inteligência artificial”, “mobilidade de futuro”. A pequena Alice, em seu sétimo aniversário, e a estudante Louise Lima, prestes a completar 17, olham para o horizonte com a intuição de quem herda um destino em construção. O septuagenário Carlos Cândido, com a memória viva dos bondes e trens de outrora, saúda os metrôs e eletroterminais de agora. Há, de fato, um avanço tecnológico que facilita vidas, otimiza processos e gera legítima esperança. A questão, contudo, reside em saber se a inteligência de uma cidade se mede apenas pela sofisticação de seus algoritmos ou pela profundidade da justiça em suas ruas.
É louvável que se invista em mobilidade, saúde digital e educação adaptativa. Ninguém em sã consciência negaria a conveniência de um eletroterminal moderno ou a agilidade de um telediagnóstico. No entanto, o discurso predominantemente otimista, que faz da tecnologia a panaceia urbana, arrisca-se a construir uma “cidade-bolha” de alta conectividade para poucos, enquanto o essencial padece na periferia. A promessa de uma “Smart City humana” não pode se divorciar do imperativo de uma cidade justa para todos. A inteligência artificial para contagem de fluxo é um dado interessante, mas a ausência de saneamento básico em comunidades inteiras é um escândalo moral que nenhum algoritmo pode apagar.
A doutrina social da Igreja, ecoando a sabedoria de Pio XI, sempre nos lembrou do princípio da subsidiariedade: o que pode ser feito pelos corpos sociais menores e mais próximos, não deve ser avocato por uma instância superior. No contexto urbano, isso significa que a “inteligência” da cidade deve nascer e se desenvolver nas famílias, nas escolas, nas associações de bairro, nos pequenos empreendimentos. A tecnologia deve ser um instrumento para fortalecer esses corpos intermediários, não para esmagá-los sob a lógica de uma gestão centralizada de dados. A autonomia desses espaços de vida é o verdadeiro termômetro de uma cidade que respeita a dignidade de seus cidadãos, transformando-os em povo ativo e participante, e não em mera massa a ser monitorada.
A preocupação de Louise Lima, a estudante, sobre o “vício de não fazer atividades” por conta da IA na educação, é um sinal de alerta a ser levado a sério. Não é apenas um problema de “literacia digital”, mas de cultivo das virtudes intelectuais e morais. A escola, como sublinhou Andrea Machado, precisa ser “curadora de conteúdo e arquiteta de experiências de aprendizagem” que formem alunos críticos, criativos e empáticos, não apenas consumidores passivos de informação. A busca pela “experiência personalizada” não pode levar à fragmentação do saber nem ao enfraquecimento do raciocínio próprio. A veracidade e a honestidade exigem que reconheçamos que nem toda solução tecnológica é, por si só, um progresso humano.
O projeto de uma Salvador “humana e conectada” para seus 500 anos requer uma grande dose de humildade por parte de seus gestores e especialistas. A tecnologia é um meio, nunca um fim. Ela deve estar a serviço da pessoa e do destino comum, e não o contrário. A “participação do setor privado”, embora possa trazer eficiência, precisa ser balizada por uma clara prioridade do bem público e do acesso equitativo. As escolhas feitas agora, de fato, moldarão o futuro, mas esse futuro será verdadeiramente “inteligente” apenas se for forjado com justiça social, atenção aos mais vulneráveis e o fortalecimento das comunidades que, em sua essência, compõem a alma da cidade.
Uma cidade é como um organismo vivo, suas veias não são apenas os cabos de fibra ótica, mas as relações humanas que se tecem no dia a dia. Seu coração não pulsa apenas nos centros de comando, mas nas praças e becos onde as vidas se encontram e se ajudam. O verdadeiro desafio não é apenas otimizar fluxos de tráfego, mas garantir que ninguém fique à margem do fluir da vida digna. Salvador tem a chance de construir um modelo de “Smart City” que não se contente com a eficiência da máquina, mas aspire à plenitude do corpo social. Que a celebração dos 500 anos da cidade seja a celebração de um projeto de vida comum, onde a tecnologia, com juízo reto, serve à sabedoria do povo e à caridade entre os homens.
Fonte original: Portal A TARDE
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.