Quando um líder político fala em “sacrifícios” e “concessões” para assegurar alianças, a primeira pergunta que se impõe não é sobre a tática, mas sobre a verdade que a fundamenta. O Presidente da República, ao defender a flexibilização do PT na montagem de palanques para as eleições de outubro, e ao abordar temas como a política de combustíveis e o cenário internacional, parece operar sob a lógica do “tudo pelo poder”, que pode mascarar uma série de riscos à ordem social e econômica. A retórica do pragmatismo, embora possa parecer atraente, exige um escrutínio apurado para distinguir a necessária arte política do mero cálculo oportunista.
A defesa de “concessões” eleitorais enquanto o partido já goza de uma hegemonia consolidada em estados estratégicos, como o Ceará e a Bahia – onde o PT está no comando há quase duas décadas –, assume ares de eufemismo. Não se trata, aqui, de um sacrifício genuíno em nome da governabilidade ou da representatividade plural, mas antes de uma estratégia para consolidar e perpetuar o poder, reconfigurando o tabuleiro político em seu favor. O risco é que essa busca incessante por controle subverta a própria natureza da competição democrática, minando a vitalidade da oposição e a chance de alternância, essenciais para a saúde cívica de qualquer nação. A doutrina da subsidiariedade, cara à Igreja, nos recorda que o bem comum é melhor servido quando as esferas de poder, desde as menores comunidades até o Estado, exercem suas funções sem esmagar as demais, garantindo a autonomia e a corresponsabilidade. A centralização partidária desmedida fragiliza esse tecido orgânico.
No campo da economia, a justificação para a alta dos combustíveis recai sobre “fatores externos” e conflitos internacionais, acompanhada da intensificação da fiscalização por órgãos como a Polícia Federal e Procons, e de promessas de “iniciativas para reduzir a carga tributária”. Embora a geopolítica inegavelmente impacte os mercados, a omissão de uma análise mais profunda sobre as políticas tributárias internas e a governança da Petrobras revela uma retórica que convenientemente externaliza responsabilidades. A verdade, neste caso, é que a sustentabilidade fiscal dos subsídios é uma preocupação legítima, pois pode gerar passivos futuros e comprometer a saúde orçamentária. A justiça exige transparência e honestidade intelectual na alocação dos custos, e não apenas o discurso de contenção de preços que pode, no fundo, apenas adiar uma conta maior.
A política externa, por sua vez, demonstra uma preocupante inclinação personalista e ideológica. Ao criticar abertamente e rotular líderes estrangeiros como “seu Trump” e “seu Netanyahu”, o Presidente Lula arrisca atritos desnecessários com parceiros comerciais e diplomáticos cruciais, sem necessariamente fortalecer a posição do Brasil como mediador neutro. A diplomacia não é um palco para paixões ideológicas, mas um instrumento de prudência a serviço dos interesses permanentes da nação. A busca por uma ‘melhor forma de se posicionar’ diante de conflitos internacionais não pode, portanto, ser divorciada da veracidade e da justiça, que exigem uma avaliação serena dos fatos e um cálculo que priorize o destino da na nação acima das afinidades ideológicas pontuais.
O julgamento, portanto, é claro: a retórica do “sacrifício” e da “concessão” no tabuleiro eleitoral, quando proferida por quem já detém poder hegemônico, confunde pragmatismo com instrumentalização. A atribuição exclusiva de responsabilidades econômicas a fatores externos e a postura ideológica na política internacional são atalhos que comprometem a veracidade do debate público e a retidão da ação governamental. A busca por governabilidade é um dever, mas ela só se torna legítima quando balizada pela justiça, pela subsidiariedade e pela veracidade, que servem ao bem-estar do povo e à perenidade das instituições, e não à mera perpetuação de um projeto de poder. A construção de uma sociedade livre e justa não se faz com retalhos de conveniência, mas com fios robustos de princípio.
Fonte original: O TEMPO
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.