A sirene de alarme, quando soa com furor, exige atenção imediata. Mas se a melodia se desfigura em gritaria e impropério, o risco é que a mensagem se perca no ruído, e a tragédia, anunciada em excesso, seja recebida com surdez. A voz do economista Jeffrey Sachs, ao denunciar a escalada militar no Oriente Médio e o risco de uma catástrofe econômica global, carrega o peso de preocupações genuínas e dados alarmantes. O aumento do preço do petróleo Brent, a vulnerabilidade da infraestrutura energética na região e a potencial interrupção do fornecimento global são fatos que demandam seriedade e ação urgente, sublinhando os perigos reais de um conflito que pode devastar vidas e economias.
Contudo, por mais legítima que seja a angústia diante da iminente destruição, a linguagem empregada por Sachs, por vezes, confunde o mensageiro com a mensagem, eclipsando a clareza necessária para o discernimento. As acusações de “psicopatia”, “fascismo”, “delírio” e “mentira compulsiva” dirigidas a líderes políticos, bem como a sugestão de que o governo dos Estados Unidos opera em “colapso completo” e sob a batuta de “gangsters”, ainda que exprimam uma indignação profunda, desviam o debate público da análise factual para o ataque pessoal, desprovido de verificação independente. Tal retórica, mais inflamada que precisa, corre o risco de descredibilizar a própria urgência que pretende comunicar.
A Doutrina Social da Igreja, ao debruçar-se sobre a ordem internacional, clama pela veracidade e pela justiça. A comunicação responsável, princípio reiterado por Pio XII, distingue o povo, capaz de discernir a verdade, da massa, suscetível aos apelos mais emocionais. O debate público, mesmo diante de um perigo tão palpável, exige a honestidade de separar os fatos da adjetivação desmedida, as preocupações legítimas das inferências não substanciadas. Atribuir a complexidade de uma crise geopolítica a meros defeitos morais absolutos de indivíduos é um reducionismo que compromete a busca por soluções. A sanidade, tão cara a Chesterton, adverte-nos contra a tentação de reduzir fenômenos intrincados a patologias de tiranos, um tipo de “loucura lógica” que pode ser tão perigosa quanto a inação.
O desafio reside em não permitir que a corrosão da confiança pública em processos de governança se estabeleça como um destino. Quando se sugere que o governo atua como “gangsters”, a própria base da autoridade legítima se fragiliza. A solução para o caos não está na deslegitimação total das instituições – pois isso abriria as portas para uma estatolatria vazia de sentido ou para a anarquia –, mas na exigência de maior laboriosidade e responsabilidade por parte delas. A defesa dos corpos intermediários e de uma sociedade vibrantemente organizada não se compatibiliza com a narrativa de colapso, mas com a incessante busca por ordem, transparência e competência.
O clamor de Sachs para que a guerra pare “agora” é um eco do grito da humanidade por paz. Mas para que este apelo seja eficaz e não se perca no vendaval das paixões, ele precisa ser ancorado na veracidade dos fatos, na justiça da avaliação e na serenidade da razão. Somente assim se constrói a verdadeira paz, que não é a mera ausência de conflito, mas a tranquillitas ordinis – a tranquilidade da ordem justa, estabelecida sobre bases sólidas de verdade e direito.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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