No mercado persa das ambições políticas, onde alianças se forjam em mesas de negociação e princípios se dobram à conveniência do poder, o bem da cidade muitas vezes é a primeira baixa. Em Roraima, o burburinho eleitoral de 2026 desenha um cenário onde as figuras mais influentes do estado parecem navegar entre a manutenção de parcerias antigas e a busca por novos arranjos, tudo sob a capa de uma retórica que nem sempre se coaduna com a ação. A aparente solidez da parceria entre Arthur Henrique e Teresa Surita, por exemplo, é tensionada por especulações e pelo esforço de Romero Jucá em se apresentar como um articulador “impedido” por apelos externos a disputar uma vaga federal. Essa oscilação entre o que se declara e o que se manobra é o pântano onde a veracidade na vida pública é engolida.
Ainda no front institucional, a transição do ex-senador Mecias de Jesus para uma cadeira vitalícia no Tribunal de Contas do Estado (TCE) é um sintoma alarmante. Prometer uma fiscalização “sem participação partidária” logo após reafirmar sua lealdade bolsonarista e influenciar as articulações eleitorais do Republicanos é um paradoxo que esvazia a autoridade moral da função. A legítima preocupação com a independência do órgão fiscalizador não é um mero preciosismo jurídico, mas a defesa de um pilar da justiça administrativa. A Doutrina Social da Igreja adverte contra a estatolatria e a confusão entre os poderes, pois a instrumentalização das instituições para interesses políticos imediatos corrompe a ordem que deveriam salvaguardar, minando a confiança dos cidadãos na imparcialidade do Estado.
Paralelamente, a pauta da infraestrutura rodoviária em Roraima revela a distância entre a necessidade premente e a alocação de recursos. O orçamento de R$110 milhões para 2026, embora um avanço, ainda se encontra aquém dos R$150 milhões que o DNIT estima como urgentes, sem contar os R$250 milhões necessários para asfaltar integralmente a BR-401 até Normandia. A destinação de R$35 milhões de emendas para esta obra crucial é um aceno, mas a dependência de pleitos contínuos em Brasília e a realocação de R$8,5 milhões da infraestrutura viária estadual para a educação, embora esta última seja uma área nobre, evidenciam uma gestão orçamentária que falha em dar conta de suas obrigações primárias. Sem estradas funcionais, a economia definha e o desenvolvimento das comunidades é tolhido, ferindo a responsabilidade para com o crescimento integrado do estado.
Em outro ponto do mapa político, a distante São Paulo expõe uma ferida de representatividade que não se restringe a Roraima. A formação de uma comissão da Câmara Municipal para tratar de políticas para as mulheres, composta por sete vereadores homens e a oferta de uma vaga “simbólica e temporária” a uma vereadora, é um exemplo cru da dissonância entre o discurso e a prática. Não basta criar o cargo ou o fórum; é preciso que a participação seja genuína e que a voz dos diretamente afetados seja ouvida e valorizada. A ausência de representação efetiva em temas tão específicos é um sinal claro de que a busca pela igualdade e pelo discernimento reto ainda tropeça em velhas estruturas de poder.
É a ironia da modernidade política: a busca por uma pretensa “governabilidade” ou “eficácia” acaba por produzir uma caricatura da ordem. Como Chesterton, com sua perspicácia para o paradoxo, sem dúvida apontaria, a “sanidade” política não reside em fazer o que é mais fácil ou em forjar alianças sem princípio, mas em manter-se firme naquilo que é essencial e visivelmente verdadeiro. Quando a ideologia se torna um disfarce para o oportunismo, ou quando a burocracia se escuda em justificativas convenientes, a substância da vida pública se esvai, e o solo sobre o qual se deveria construir a prosperidade comum se torna movediço.
Os fatos se encadeiam em um juízo inescapável: a saúde de uma comunidade política não se mede apenas pela pujança de seus líderes ou pela quantidade de recursos movimentados, mas pela integridade de suas instituições, pela clareza de seus princípios e pela real capacidade de servir aos mais elementares direitos de seus membros. A dignidade da pessoa humana, em sua concretude, demanda que a política vá além do jogo de cartas marcadas e assuma a gravidade de sua vocação. O Estado, para ser verdadeiramente servidor, precisa edificar a vida comum sobre a rocha da verdade e da justiça, e não sobre as areias movediças da conveniência.
A paz social e a verdadeira prosperidade florescem onde os deveres públicos são cumpridos com retidão e os princípios, por vezes incômodos, são mais valiosos que os cálculos efêmeros do poder.
Fonte original: Folha de Boa Vista: Not�cias, Imagens, V�deos e Entrevistas
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.