A cada ciclo eleitoral, a cortina da vida pública se agita, revelando não apenas a natural dança das ambições políticas, mas por vezes, as fundações corroídas da justiça. Em Roraima, o recente início do período de desincompatibilização, que serve de rito para as disputas de 2026, vem acompanhado de um quadro que expõe a necessidade premente de veracidade e retidão na administração da coisa pública. A prisão de Henrique Machado, ex-conselheiro do Tribunal de Contas, condenado a onze anos por peculato no famigerado “Caso Gafanhotos”, é um lembrete contundente: a lei natural, que exige a punição do mal e a reparação da injustiça, não pode ser subvertida por caminhos tortuosos ou pela morosidade conveniente.
É um escândalo que, num sistema que se pretende justo, a responsabilização pareça ser seletiva, alimentando a percepção popular de que “muito mais gente envolvida escapou”. Essa falha na aplicação da justiça mina a confiança dos cidadãos nas instituições, transformando os ritos democráticos em meros palcos para arranjos de poder. As desincompatibilizações e as trocas de secretariado, tanto no governo estadual quanto na prefeitura de Boa Vista, embora sejam partes legítimas do jogo político, ganham um tom sombrio quando interpretadas primordialmente como manobras para “preparar o terreno para as eleições vindouras” ou para “manter a máquina pública em pleno ano eleitoral”. A gestão não é um tabuleiro de xadrez eleitoral, mas um serviço ao bem da cidade.
A prorrogação da liquidação da Companhia Energética de Roraima (CERR) até o fim de 2026, arrastando-se por quatro anos sem clareza sobre seus desdobramentos, é um sintoma dessa enfermidade. Quando estruturas temporárias, como as secretarias extraordinárias, se perpetuam por conveniência política, a subsidiariedade é ferida, e a máquina estatal, em vez de servir, tende a inchar e a instrumentalizar os bens públicos. A justificativa governamental de “garantir a continuidade de projetos” soa oca se não houver metas claras, transparência nos gastos e um plano inequívoco para a conclusão ou realocação dessas funções. O patrimônio público, como o CNPJ da CERR, cujo valor potencial é estimado em milhões, não pode ser gerido sob um véu de indefinição.
A Doutrina Social da Igreja, particularmente nas advertências de Pio XI contra a estatolatria e na distinção de Pio XII entre o “povo” e a “massa”, oferece uma lente aguda para decifrar tais cenários. O Estado não é um fim em si mesmo, nem um instrumento para a ascensão de grupos ou famílias, mas uma instância de serviço à ordem justa e à vida comum. Quando a influência de conselheiros não-oficiais, como um pastor evangélico que “evita que ele ouça os que não concordam”, pauta decisões de prefeitos, a esfera pública se contamina por agendas privadas e a accountability se esvai. O governo sábio exige discernimento e responsabilidade pública, não a confiança cega em quem ecoa apenas o que se quer ouvir.
Os reajustes salariais, que parecem ser concedidos “na base da pressão” e de forma escalonada até 2027, com diferenças entre os servidores estaduais e os de órgãos autônomos, merecem um olhar atento. A justiça distributiva impõe que a valorização do funcionalismo seja equilibrada e transparente, sem transformar o salário em moeda de troca eleitoral ou em um fardo disfarçado para futuras administrações. É preciso que a política de pessoal seja fruto de planejamento honesto e da reta razão, e não de cálculos de oportunidade.
A gestão do Estado, em Roraima e em todo o Brasil, exige mais do que a mera observância das formalidades eleitorais. Demanda uma honestidade radical com a verdade dos fatos, uma firmeza inflexível na aplicação da justiça e uma dedicação inabalável ao dever compartilhado. Os pilares da vida pública só se sustentam sobre a rocha da moralidade, da transparência e do desinteresse pessoal, e não sobre a areia movediça da conveniência e da impunidade.
O verdadeiro serviço público se manifesta na clareza dos atos, na firmeza contra a corrupção e na prioridade aos bens essenciais da população. Não é na turbulência dos acordos de bastidores, mas na serena força da lei bem aplicada, que se edifica a paz social.
Fonte original: Folha de Boa Vista: Not�cias, Imagens, V�deos e Entrevistas
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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