Irã 1979: Revolução, Teocracia e a Liberdade Sacrificada

A Revolução Iraniana de 1979 prometeu liberdade, mas ergueu uma teocracia que suprimiu a diversidade e autonomia. Analisamos como o Irã trocou uma jaula por outra.

🟢 Análise

A Pérsia antiga, berço de civilizações e entreposto de rotas comerciais que uniam o Oriente e o Ocidente, floresceu sob a égide de impérios que, por séculos, souberam amalgamar povos e culturas. Suas invenções, da engenharia aos saberes médicos, e sua identidade cultural, moldada por literatura e arte, atestam uma grandeza que se estendia da Índia ao Mediterrâneo. Um legado de tolerância religiosa, como atestado pelo Cilindro de Ciro, marcava uma era onde o diverso era reconhecido. Contudo, essa mesma terra, que tanto cultivou a liberdade de crença e a autonomia de seus povos, experimentou em 1979 uma revolução que, embora prometendo resgatar a soberania e a justiça contra um regime autoritário e alinhado a potências estrangeiras, acabou por erigir uma estrutura de poder que trocou uma jaula por outra, sob a égide do sacro.

Não se pode ignorar a legitimidade do impulso popular que varreu o Xá Mohammad Reza Pahlavi. O regime era, de fato, percebido como autoritário e subserviente a interesses externos. A coalizão revolucionária, inicialmente, era um mosaico de vozes – clérigos, estudantes, intelectuais, trabalhadores, comerciantes, e até grupos de esquerda e nacionalistas. Todos unidos na esperança de uma nova alvorada para o Irã, um país de identidade ancestral que havia sido submetido a modernizações forçadas e a um centralismo sufocante. A queda do Xá, que deixou o país em janeiro de 1979, e o retorno de Ruhollah Khomeini, marcaram um momento de euforia e a promessa de uma autêntica libertação nacional.

O referendo que aprovou a República Islâmica, contudo, abriu as portas para uma virada amarga. A centralização do poder nas mãos dos clérigos xiitas, formalizada pelo princípio do Velayat-e Faqih e pela figura do Líder Supremo, não tardou a marginalizar e suprimir aqueles que, antes, haviam lutado lado a lado. Grupos de esquerda e nacionalistas foram afastados, suas aspirações por um Irã plural e democrático esmagadas sob o peso de uma teocracia em ascensão. A prometida autonomia cedeu lugar a uma nova forma de controle, onde a diversidade de opiniões e as liberdades civis foram sacrificadas no altar de uma uniformidade imposta.

A islamização compulsória da vida pública é o testemunho mais eloquente dessa promessa traída. A revogação da Lei de Proteção à Família de 1967, por exemplo, representou um retrocesso flagrante em direitos das mulheres, mostrando que a revolução, em vez de expandir liberdades, as restringia sob o véu de um moralismo estatal. Aqui, a Doutrina Social da Igreja, que insiste na liberdade ordenada e na família como sociedade primeira, anterior ao Estado, oferece um contraponto crucial. Pio XI alertava contra a estatolatria, a adoração do Estado como fim em si, e Pio XII distinguia o povo da massa, repudiando a massificação que sufoca as expressões autênticas da sociedade em nome de uma homogeneidade coercitiva. A justiça foi severamente comprometida quando o poder se concentrou de tal forma que esmagou os corpos intermediários da sociedade e a justa autonomia dos indivíduos.

Há algo de profundamente irônico, quase um paradoxo, em ver uma revolução nascida da legítima indignação contra um autoritarismo alienígena converter-se numa autoridade que, por vezes, se mostra igualmente, senão mais, asfixiante. A velha Pérsia, com sua história de inovação e rotas de ideias, viu a nova República Islâmica priorizar o controle religioso sobre a efervescência intelectual e a livre expressão. A veracidade da promessa de libertação e de um futuro mais justo foi substituída por uma lógica de poder que, para manter-se, exigiu a renúncia a uma parte substancial da liberdade em nome da ordem teocrática. A soberania reconquistada ao Xá não resultou na soberania do povo, mas na soberania de um regime clerical.

A lição do Irã é pungente: uma revolução que devora suas próprias fontes de diversidade, que substitui um opressor por outro, por mais distintas que sejam suas vestes, não cumpre seu desígnio de libertar. A verdadeira independência de uma nação não se mede apenas pela ausência de tutela externa, mas pela garantia da liberdade ordenada de seus cidadãos e pela vitalidade de seus corpos sociais. A liberdade conquistada não deve ser o pretexto para um novo cativeiro, mesmo que adornado de pietismo.

Fonte original: Poder360

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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