A voz do poder, quando se inflama em ameaças de aniquilação, não ecoa apenas nas capitais inimigas, mas estremece os próprios pilares da ordem civilizada. A retórica veemente do presidente Donald Trump, ao exigir a reabertura do Estreito de Ormuz sob pena de “dizimar” a infraestrutura civil iraniana – pontes, usinas de energia – e sua justificação de que “o crime de guerra é permitir que o Irã tenha uma arma nuclear”, não é mera bravata política; é uma afronta direta aos princípios mais elementares da justiça nas relações internacionais e ao próprio direito natural.
Os fatos são claríssimos: o Estreito de Ormuz, por onde transita um quinto do petróleo mundial, está sob bloqueio, impactando a economia global e o abastecimento de países da Ásia. A tensão é real e as consequências são palpáveis, com danos já registrados em instalações de dessalinização de nações vizinhas. Israel, um aliado, já atacou uma central petroquímica iraniana. Ninguém ignora a complexidade e a gravidade da situação regional. Contudo, a resposta não pode ser a suspensão da moralidade.
A Doutrina Social da Igreja, informada pela perene sabedoria de São Tomás de Aquino, jamais admitiu a guerra como um carte blanche para a barbárie. A guerra, mesmo que justa em sua origem – e aqui já haveria um longo debate –, é sempre um mal grave, sujeita a estritas condições morais. Entre elas, a virtude da justiça exige a discriminação entre combatentes e não-combatentes. Atacar pontes, usinas de energia e outras infraestruturas civis que sustentam a vida de milhões, não por seu valor militar direto mas como forma de coação sobre a população, é uma violação gritante dessa distinção. Constitui, como bem apontam especialistas, um potencial crime de guerra. Chamar líderes de “animais” e desprezar as vidas de “milhões de manifestantes” que teriam sido mortos pelo regime, para justificar a aniquilação de todo um país, é um perigoso relativismo moral que inverte a ordem dos bens.
A prudência, virtude que nos guia na escolha dos meios adequados para fins justos, é igualmente atropelada. A crença de que a destruição massiva de um país levará a uma rendição rápida e incondicional é uma quimera. Pelo contrário, tal ação provavelmente consolidaria a resistência, radicalizaria a população e criaria uma crise humanitária de proporções inauditas, com milhões de civis privados de água e energia, independentemente de sua lealdade ao regime. A escalada seria imprevisível, arrastando outros atores e aprofundando o colapso econômico global.
O Irã, mesmo que seja um regime complexo e problemático, apresentou uma contraproposta de 10 pontos, incluindo a exigência de um “fim permanente da guerra” e garantias de segurança. Rejeitar sumariamente essa via diplomática, trocando-a por um ultimato de aniquilação, não é apenas um erro moral; é uma falha estratégica colossal. A busca por uma paz justa e duradoura, como exorta o Magistério desde Leão XIII a Pio XII, exige o esgotamento de todas as vias pacíficas e o respeito ao direito das gentes, mesmo entre adversários.
A tentação de resolver complexidades geopolíticas com a força bruta e a linguagem aviltante é um atalho perigoso. O verdadeiro estadista não busca a glória em ruínas alheias, mas na construção de uma ordem mais justa e pacífica. A sanidade, como Chesterton nos lembrava, consiste em ver o mundo tal como ele é, e não em transformá-lo num palco para a fúria.
Não se constrói uma paz duradoura ao preço da destruição das pontes que ligam os homens à vida e, porventura, ao diálogo. A verdadeira força de uma nação se mede não pela sua capacidade de dizimar, mas pela sua aptidão para salvaguardar a dignidade da pessoa humana, mesmo no fragor do conflito, e para buscar, com tenacidade e justiça, os caminhos para uma paz ordenada. O futuro do Golfo não pode ser o inferno prometido por quem confunde força com fúria.
Fonte original: O Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
Artigos Relacionados
Líbano: A Crueldade da Paz que Ignora a Guerra Real
A Paz em Areia Movediça: Acordos Ambíguos e o Líbano