A verdade mais incômoda sobre a crise da resistência a antibióticos não reside apenas na fatalidade biológica ou na imprudência individual, mas na arquitetura moral que permite que uma ameaça global silenciosa avance enquanto a responsabilidade se esvai nas teias da omissão e do lucro. As estatísticas são alarmantes: 1,3 milhão de mortes anuais, com projeções de até 10 milhões até 2050, superando o câncer. É um alerta estridente que, contudo, costuma ser abafado por uma narrativa simplista que, de tão focada no espelho, ignora o horizonte.
De fato, é inegável que a automedicação e o uso desnecessário de antibióticos por parte da população, muitas vezes para infecções virais que não os demandam, alimentam o caldo de cultura das bactérias resistentes. A Anvisa acerta ao exigir receita, e a campanha por um diagnóstico mais preciso é um dever. O aumento de vendas de azitromicina no Brasil e o hábito de consumir antibióticos sem prescrição são feridas abertas que a educação e a fiscalização devem sanar. Cada dose indevida, cada tratamento interrompido, é um flanco aberto na guerra contra os microrganismos.
Contudo, reduzir o problema à falha individual ou à falta de informação é um ato de injustiça intelectual e social. É preciso ter a veracidade para reconhecer que a crise da resistência antimicrobiana é, em sua essência, uma falha de governança global e de mercado, onde assimetrias de poder e incentivos econômicos pervertem a ordem natural das coisas. Não basta apontar o dedo para o paciente que se automedica se ele enfrenta barreiras intransponíveis de acesso à saúde e a diagnósticos adequados. O Estado, antes de exortar, precisa garantir as condições materiais para que a população exerça sua responsabilidade.
A crítica mais incisiva, e por vezes evitada, deve recair sobre a indústria farmacêutica e as grandes cadeias agropecuárias. Como exigir que a indústria “invista no desenvolvimento de novos medicamentos” sem questionar os incentivos de mercado que dificultam a pesquisa de antibióticos de espectro limitado e de alto custo de P&D, mas com baixo retorno financeiro? A propriedade, segundo a Doutrina Social da Igreja, possui uma função social. No caso da propriedade intelectual de fármacos essenciais, isso implica um dever de `solidariedade` com o destino comum da humanidade, que transcende a lógica do lucro imediato.
Não podemos nos enganar: a menção de que “a cada novo antibiótico lançado no mercado, novos mecanismos de resistência se desenvolvem” não é um mero detalhe biológico. Ela sugere que a humanidade se encontra numa corrida armamentista sem fim, onde a solução não pode ser apenas a inovação tecnológica contínua, mas uma mudança radical de paradigma. As práticas agropecuárias, que utilizam antibióticos como promotores de crescimento em vez de investir em higiene e manejo animal, precisam ser reguladas com rigor, não apenas por controle, mas por `justiça` ecológica e sanitária.
A saída para esse labirinto não é simples, mas passa por um esforço `laborioso` e `responsável` de reordenamento. Implica fortalecer a `subsidiariedade` na base, com investimentos robustos em diagnósticos acessíveis e precisos na atenção primária. Exige uma `magnanimidade` dos governos em estabelecer políticas que submetam a lógica do mercado à saúde pública, garantindo a pesquisa e o acesso a fármacos essenciais. Por fim, convoca a uma `humildade` coletiva para reconhecer que o problema não é a soma de culpas individuais, mas a fragilidade de um sistema onde a vida humana e a ordem natural são relegadas a segundo plano.
A verdadeira cura, portanto, não é apenas um novo antibiótico, mas uma `justiça` restaurada no corpo social. Não basta purificar a água; é preciso sanear a fonte.
Fonte original: Correio do povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.