A repescagem intercontinental da Copa do Mundo, que coloca Bolívia e Suriname frente a frente, oferece um drama esportivo inegável, com a promessa de uma vaga inédita ou um retorno histórico ao maior palco do futebol. Contudo, em meio à euforia previsível e ao entusiasmo dos torcedores, o Polemista Católico precisa levantar a bandeira da verdade e da justiça: nem toda vitória, por mais celebrada que seja, é sinal de saúde perene, nem toda estratégia, por mais “legítima” que se diga, promove o bem intrínseco do esporte. Há vitórias que, como árvores com raízes curtas, podem desabar ao primeiro vendaval, por não terem sido cultivadas em solo fértil de virtudes.
A Bolívia, com sua estratégia de mandar jogos a 4100 metros de altitude em El Alto, soube usar um “privilégio” geográfico intransponível. Quatro vitórias e dois empates em casa atestam a eficácia tática desse recurso, que o melhor argumento contrário classifica como um aproveitamento legítimo de uma característica natural. Mas a que custo? A equidade da competição é ferida quando o desempenho de atletas adversários é comprometido não por sua habilidade, mas pela fisiologia brutal de uma atmosfera rarefeita. O que se ganha em pontos, perde-se em justiça esportiva. Não é que o esforço boliviano seja nulo, mas a primazia dada a um fator externo esvazia a exigência de uma laboriosidade constante e adaptável, crucial para o desenvolvimento futebolístico que transcende as peculiaridades de uma só cidade. A verdadeira grandeza de uma equipe reside na capacidade de se provar em quaisquer condições, sem depender de bengalas que distorcem o campo de jogo.
O Suriname, por sua vez, abraçou uma outra estratégia de “atalho”: a permissão de dupla-nacionalidade em 2019, que abriu as portas para uma diáspora de talentos formados em ecossistemas futebolísticos mais desenvolvidos, notadamente na Holanda. Dos 26 convocados, apenas três nasceram no país. Mais uma vez, o argumento da “globalização” e do “fortalecimento da identidade nacional” é prontamente invocado. Mas, como o Papa Pio XII alertava sobre a distinção entre “povo” e “massa”, uma seleção nacional deve ser a expressão orgânica de um desenvolvimento interno, a colheita de uma semeadura local, e não a mera agregação de talentos que não brotaram de suas próprias raízes. Qual o impacto real dessa importação maciça no incentivo às categorias de base, aos corpos intermediários que deveriam formar os jovens atletas dentro do próprio país? Há um risco concreto de que o brilho efêmero dos “europeus” ofusque a necessária e penosa tarefa de construir uma estrutura sólida de formação, de investir na honestidade e laboriosidade dos clubes e escolas locais.
A própria natureza da repescagem intercontinental, um ou dois jogos que definem uma vaga após campanhas desiguais em confederações distintas, agrava essa questão de justiça. O mérito de uma nação, medido por anos de investimento em formação, infraestrutura e continuidade institucional – os “bens internos das práticas”, como diria o Magistério social –, pode ser subsumido por um golpe de sorte ou pelo aproveitamento pontual de condições anômalas. Essa “loucura lógica” de um sistema que celebra o resultado sem questionar profundamente seus meios é uma afronta à reta razão. Chesterton, em sua defesa da sanidade contra as abstrações ideológicas, nos lembraria que o progresso real não está em atalhos que falseiam a realidade, mas na paciência de cultivar o que é verdadeiro e duradouro.
A alegria da possível classificação, inegável e legítima para as populações, não pode nos cegar para a urgência de uma responsabilidade maior. A Federação Boliviana de Futebol, se quiser construir um futuro, deve apresentar um plano que minimize a dependência da altitude, que valorize o desenvolvimento técnico em todas as condições. A Federação Surinamesa precisa buscar o equilíbrio entre a atração da diáspora e o investimento radical e transparente nas escolas de futebol e clubes locais, incentivando a laboriosidade e o pertencimento dos que crescem no próprio país. A FIFA, por sua vez, deveria revisar mecanismos que, em nome da inclusão, acabam por desvirtuar a competição justa e a verdade do esporte.
Não se trata de negar a felicidade da torcida ou o esforço dos atletas, mas de questionar as fundações de uma possível vitória. Pois uma nação que busca a glória esportiva não deveria se contentar em colher frutos que não nasceram de suas próprias e bem-irrigadas raízes, mas sim de atalhos que, por mais espertos que pareçam, minam a justiça e a veracidade do que significa ser um povo com um futebol autenticamente seu.
Fonte original: Terra
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.