As eleições proporcionais para a Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) neste ano de 2026 são projetadas para serem bastante disputadas, com analistas indicando que uma grande mudança na legislatura estadual não deverá ocorrer. O Diario de Cuiabá informou em 8 de março de 2026 que 23 dos 24 parlamentares atuais buscarão a reeleição.
A reportagem destaca uma lenta renovação da classe política em Mato Grosso, que, em alguns casos, apresenta "contornos familiocratas" e se recompõe com antigos ocupantes de cargos. Dos 24 deputados na legislatura em curso, 19 são veteranos. Os parlamentares que buscam a reeleição contam com "franca vantagem" sobre candidatos sem mandato, devido à exposição na mídia, à relevância do cargo e às emendas parlamentares, que somaram R$ 27,5 milhões para cada gabinete distribuir no ano passado.
Entre os nomes que se destacam com possibilidade de eleição ou de atuarem como puxadores de votos, são mencionados Rafaela Fávaro (PSD), Rafael Machado (Republicanos), Zé Carlos do Pátio (PV), Samantha Íris (PL) e Tião da Zaeli (PL). Rafaela Fávaro, jovem e com "discurso convincente", beneficia-se da liderança política de seu pai, o senador licenciado e ministro da Agricultura, Carlos Fávaro. Em Rondonópolis, Zé Carlos do Pátio é descrito como "o mais odiado e amado dos políticos", recebendo apoio de movimentos comunitários e sem-terra, enquanto a oposição brota do agronegócio, do qual é crítico. A reportagem ressalta que "Política não é ciência exata e, em todas, as eleições a zebra marca presença", alertando que "Incidentes de percurso, impugnações de candidaturas e escândalos" podem alterar as intenções de voto.
O Diario de Cuiabá catalogou 38 nomes que poderão ser aprovados nas convenções, distribuídos por 22 municípios para as pré-chapas. Entre esses, estão Samantha Iris (PL), primeira-dama de Cuiabá e vereadora, e Tião da Zaeli (PL), vice-prefeito de Várzea Grande. Outros nomes relevantes incluem Jéssica Riva (MDB), filha do ex-deputado José Riva, e Gilberto Figueiredo (União Brasil), secretário estadual de Saúde. Vereadores de Cuiabá e Rondonópolis também disputarão vagas para deputado estadual, competindo com deputados que buscam a reeleição.
A análise sobre a estabilidade eleitoral em Mato Grosso e a baixa renovação da Assembleia Legislativa, com contornos familistas e a reocupação de cargos por veteranos, transcende a mera descrição factual. Ela aponta para um problema estrutural de captura de instituições democráticas por elites estabelecidas, onde a "franca vantagem" dos incumbentes não é apenas uma circunstância política, mas o resultado de um sistema que se realimenta, limitando a democratização do acesso ao poder e perpetuando desequilíbrios. O que o relato factual deixa implícito é que essa "lentidão" na renovação não é neutra, mas sim um mecanismo que obstaculiza a emergência de novas vozes e a representação de estratos sociais frequentemente excluídos.
A vantagem material dos parlamentares atuais, evidenciada pelos vultosos R$ 27,5 milhões em emendas parlamentares por gabinete, revela uma assimetria de poder gritante. Esses recursos, destinados ao desenvolvimento regional, acabam por funcionar como um capital político que fortalece as bases eleitorais dos incumbentes, criando uma barreira quase intransponível para candidatos sem mandato. Como Daron Acemoglu e James Robinson argumentam em suas análises sobre instituições extrativistas, a perpetuação de privilégios econômicos e políticos por grupos restritos desvirtua a lógica democrática, impedindo a construção de instituições inclusivas que deveriam garantir oportunidades equitativas para todos os cidadãos. O "familismo" político, por sua vez, corrobora a tese de Jessé Souza sobre a reprodução de uma "ralé" e de uma elite que se consolida através de laços de sangue e privilégios, impermeabilizando o sistema político à verdadeira meritocracia e à diversidade social.
Essa dinâmica tem impactos distributivos profundos, canalizando o poder e a influência para um círculo restrito, em detrimento da capacidade de grupos vulneráveis de verem suas demandas endereçadas. A dificuldade em eleger novas representações significa que pautas ligadas à justiça social, à equidade e aos direitos coletivos podem permanecer marginalizadas, enquanto interesses de grupos consolidados continuam a moldar a agenda legislativa. A representatividade não se esgota no voto, mas na capacidade de diversas perspectivas sociais serem efetivamente incorporadas ao processo decisório, algo que a atual configuração de poder parece dificultar sistematicamente.
Para reverter essa solidificação do poder, são necessárias políticas públicas inclusivas que fortaleçam a participação popular e promovam a redistribuição equitativa de recursos. Isso passa por uma reforma eleitoral que democratize o financiamento de campanhas e reduza o peso das emendas parlamentares como instrumento de perpetuação de mandatos. Além disso, urge o fortalecimento da educação política e da conscientização cívica, conforme preceituava Paulo Freire, para que a sociedade possa identificar e contestar as estruturas que impedem uma verdadeira alternância e pluralidade de representação. Só assim será possível construir um legislativo que reflita a complexidade e a diversidade da sociedade de Mato Grosso, garantindo que o poder não seja um privilégio, mas um serviço público acessível a todos.
Renovação Política: Experiência vs. Novas Vozes em MT
A persistente discussão sobre a renovação política nas assembleias legislativas estaduais, como a de Mato Grosso, revela uma tensão fundamental na dinâmica democrática: o equilíbrio entre a estabilidade da experiência e a vitalidade da renovação. Não se trata de um embate meramente técnico, mas de uma questão profunda que tange a natureza da representação, a legitimidade do poder e a busca incessante por um ordenamento que sirva ao bem comum.
Desafios à Renovação Política e a Lógica do Estabelecido
Os fatos se impõem: a propensão dos parlamentares incumbentes à reeleição, a presença notável de laços familiares na composição do legislativo e a significativa vantagem material conferida por instrumentos como as emendas parlamentares configuram um cenário que, para muitos, expressa uma lentidão preocupante na oxigenação do sistema. É legítima a apreensão de que tal realidade possa não apenas refletir, mas também perpetuar desequilíbrios, limitando a emergência de novas vozes e a representação de estratos sociais menos favorecidos. Essa dinâmica, como bem notava Alexis de Tocqueville ao analisar as democracias modernas, pode, sem as devidas salvaguardas, levar a uma espécie de tirania do estabelecido, onde a massa do povo, ainda que soberana, encontra dificuldades em ver sua diversidade plenamente refletida no poder.
O Valor da Experiência e a Prudência da Mudança
Contudo, a condenação irrestrita da continuidade ou da influência da tradição familiar na política seria tão imprudente quanto a aceitação passiva do status quo. A experiência, a capacidade de construir consensos e a estabilidade proporcionada por lideranças testadas pelo tempo são bens valiosos para a governança. Edmund Burke, em sua reflexão sobre a prudência política, advertia contra a paixão pela mudança por si mesma, defendendo que a sociedade e suas instituições são organismos vivos, que se desenvolvem organicamente e onde a ruptura radical pode gerar mais males do que bens. Não é a presença de veteranos ou a continuidade de sobrenomes o problema em si, mas a possibilidade de que essa continuidade se transforme em um impedimento artificial à liberdade e à igualdade de oportunidades.
Dignidade Humana e Subsidiariedade: Um Caminho para a Superação
É aqui que a razão, iluminada pela lei natural e pela Doutrina Social da Igreja, nos oferece um caminho de superação. A dignidade da pessoa humana exige que todos os cidadãos, em suas comunidades, tenham o direito e a oportunidade de participar da vida pública. O princípio da subsidiariedade nos ensina que as decisões devem ser tomadas no nível mais próximo dos afetados, mas também que as instâncias superiores têm o dever de criar as condições para que essa participação seja efetiva e justa. As emendas parlamentares, concebidas como um instrumento para que o legislativo atenda às demandas locais, podem ser um reflexo positivo da subsidiariedade; quando se tornam, porém, uma ferramenta de consolidação de poder pessoal, sua finalidade se desvirtua e passam a contrariar o bem comum.
Discernimento e Políticas Públicas para o Bem Comum
A virtude da prudência nos convoca a um discernimento para além da superfície. O desafio não é erradicar a influência ou a experiência, mas purificá-las, direcionando-as para o serviço desinteressado à comunidade. Parafraseando a Centesimus Annus, o papel do Estado, e por extensão do legislativo, é de garantir um quadro jurídico que proteja a liberdade e o bem comum, e não que privilegie grupos específicos em detrimento da participação mais ampla. Uma superação genuína requer políticas públicas que promovam a transparência no uso dos recursos, estabeleçam critérios objetivos para a alocação de verbas e incentivem, de forma orgânica, a formação e ascensão de novas lideranças, sem minar a legitimidade das que já estão em atuação.
Em suma, o debate sobre a renovação política em Mato Grosso, e em qualquer parte, deve ser elevado para além de uma mera contabilidade de nomes ou de uma polarização entre o novo e o antigo. A questão central é como construir uma pólis que, honrando a experiência e a tradição, seja permeável à inovação e à diversidade, garantindo que o poder legislativo seja um espelho fiel da sociedade que serve. Essa é a tarefa da liberdade responsável: buscar, com discernimento e equidade, o meio-termo virtuoso que sustenta o bem comum de todos, e não apenas de alguns.
Fonte original: Diario de Cuiabá
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.