Quando o espelho da realidade é embaçado pela fumaça da ideologia, o que se vê são distorções que comprometem a capacidade de discernir o certo do errado, a justiça da conveniência. A guerra entre Estados Unidos e Irã, em si já uma tragédia carregada de complexidade geopolítica, revela no Brasil uma polarização que, para alguns setores da esquerda, converte-se em um estranho silêncio sobre a opressão interna do regime iraniano. A pretexto de um legítimo anti-imperialismo, ignora-se a dignidade da pessoa humana violada dentro das fronteiras persas.
Os fatos são duros e claros. Enquanto a diplomacia brasileira, com acerto, busca a paz e o multilateralismo — atitude condizente com o direito e a boa ordem internacional —, certas vozes, como as do PCO e de Valter Pomar, justificam ou minimizam a natureza do regime teocrático iraniano. Há quem diga, como Ana Prestes, que “somente o povo iraniano pode decidir por uma mudança”, e que se deve “respeitar a soberania do povo iraniano em suas decisões”. Outros, como Rui Costa Pimenta, classificam como “tudo bem” que protestos não sejam pacíficos, ignorando a brutalidade da repressão. Mas a soberania de um povo não se confunde com a tirania de um regime. A nação não é a teocracia, e os direitos de um povo não se resumem àqueles concedidos por um clero xiita. O Magistério da Igreja, desde Leão XIII, ensina que a liberdade ordenada e a primazia da família precedem o Estado. Quando um regime oprime mulheres, persegue opositores e condena homossexuais à morte, ele ataca os alicerces de uma sociedade justa e a ordem moral pública, elementos essenciais para que um povo possa, de fato, decidir livremente seu destino, sem ser reduzido a massa manipulável.
A preocupação com o imperialismo e o sionismo, expressa por movimentos como o MST, que lança acusações gravíssimas e generalizantes, é compreensível em seu sentido histórico, mas não pode servir de salvo-conduto para regimes que esmagam seus próprios cidadãos. A coerência da justiça exige que a condenação da agressão externa — seja ela americana ou israelense, como bem pontua Ivan Valente — não se transforme em beneplácito para a tirania interna. O direito à autodefesa de um Estado, um princípio inegável do direito internacional, não concede licença moral para que o Estado se volte contra o seu próprio povo, impondo-lhe a pena de morte por discordância ou por uma orientação sexual. A confusão entre a defesa da soberania territorial e a defesa de um regime intrinsecamente injusto é uma grave falha de veracidade no debate público.
Pio XI já criticava a estatolatria, a idolatria do Estado, que se manifesta quando a autoridade estatal, em vez de servir ao bem comum e à justiça, absolutiza-se e oprime a sociedade civil. No caso iraniano, o regime teocrático xiita exerce uma forma de estatolatria que subsume a pessoa humana à lei religiosa coercitiva, sem o respeito à liberdade de consciência e aos direitos fundamentais. A discrepância entre as 3.000 mortes admitidas pelo Irã e as 4.519 com 9.000 sob investigação, reportadas por agências de direitos humanos, é um clamoroso sinal da opacidade e da violência do regime.
A argumentação de que a condenação ocidental ao Irã é seletiva, ignorando abusos de regimes aliados como a Arábia Saudita, possui um fundo de verdade que não pode ser desconsiderado. De fato, a honestidade intelectual requer que a crítica aos violadores de direitos humanos seja universal, sem pesos e medidas diferentes ditados por conveniências geopolíticas. Contudo, a seletividade dos outros não justifica a nossa própria. Apontar a hipocrisia alheia não nos isenta do dever de denunciar a injustiça onde quer que ela se manifeste, e a fortaleza moral exige que resistamos à tentação das falsas equivalências.
É preciso, portanto, separar o Estado – ente jurídico com direito à soberania e autodefesa contra agressões externas – do regime – a forma de governo e suas práticas internas. Condenar o regime teocrático iraniano por suas violações de direitos humanos não significa apoiar uma intervenção imperialista. Significa, antes, reafirmar a universalidade da dignidade humana e a primazia da justiça sobre qualquer arranjo político que a negue. O silêncio ou a justificação seletiva em nome de um anti-imperialismo mal compreendido não é sinal de discernimento, mas de uma cegueira voluntária que faz do opressor interno um mártir da causa antiocidental.
A paz duradoura não se constrói na relativização da justiça, nem na defesa de tiranos sob o pretexto de combater outros. Ela exige a coragem de olhar a realidade como ela é, sem véus ideológicos, e de defender os direitos de todos os homens, independentemente da bandeira que carregam ou do inimigo que enfrentam. A conta da justiça seletiva, porém, nunca fecha sem que os oprimidos, de um lado ou de outro, paguem o preço mais alto.
Fonte original: Jornal de Brasília
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.