A obsessão humana por sinais e presságios se manifesta nas mais triviais arenas, e o campo de futebol não é exceção. Observa-se que, desde a implementação do Ranking da FIFA em 1993, nenhuma seleção que alcançou a Copa do Mundo na primeira colocação conseguiu levantar a taça. O Brasil, aliás, amargou essa sina por quatro vezes, perdendo a final em 1998, caindo nas quartas em 2006, 2010 e 2022, sempre como líder do escalão mundial. Agora, às vésperas de 2026, a seleção canarinho ocupa a sexta posição, enquanto a França, Espanha e Argentina encabeçam a lista. Seria, pois, a atual colocação do Brasil um “bom sinal”, um trunfo supersticioso que o livra da “maldição” dos favoritos?
Essa interpretação, ainda que revestida de um apelo narrativo irresistível para o torcedor, escorrega na armadilha da ilusão. Transformar uma mera correlação estatística, extraída de uma amostra diminuta de sete Copas do Mundo, em um “tabu” com poder preditivo é um exercício de negação da realidade. Não se trata de uma análise, mas de um desejo disfarçado de fato, uma forma de evitar o confronto com as inconsistências evidentes de desempenho e a instabilidade que marcou o ciclo recente da Seleção, que viu quatro treinadores passarem pelo comando.
O que se revela aqui é uma falha na virtude da veracidade, tão essencial à ordem moral pública. A honestidade intelectual exige que se diferencie o que é curiosidade do que é causa. Um ranking, com suas imperfeições algorítmicas, é um indicador da consistência e da força de uma equipe em um dado momento. Desqualificá-lo seletivamente, apelando a um “tabu” quando ele contraria as esperanças, e ignorar as conquistas irrefutáveis de França, Espanha e Argentina – que hoje ostentam a liderança por mérito de suas vitórias e bom futebol – é desvirtuar a percepção pública. A realidade de campo, forjada em talento, estratégia tática, preparo físico e coesão, não se dobra a superstições.
A boa governança de uma equipe, assim como a de uma nação, exige juízo reto e discernimento. Não é a posição mágica no ranking que garante a taça, mas a laboriosidade na preparação, a inteligência na escolha e a fortaleza para executar um plano. Confiar num “bom sinal” nascido da ausência de uma vitória anterior do #1 é como o viajante que se apega a um nevoeiro místico para encontrar o rumo, em vez de consultar um mapa e a bússola. É uma forma de autoengano que obscurece a visão dos desafios reais e da necessidade de um trabalho árduo e sério.
Chesterton, com sua sanidade paradoxal, talvez risse da pretensão de que ser menos bom no papel é, na prática, um privilégio. A verdade, muitas vezes, é mais simples e menos espetacular do que as construções mentais que forjamos para nos proteger dela. A suposta “maldição” dos primeiros colocados no ranking da FIFA não é um fardo místico, mas um lembrete da dificuldade inerente ao futebol de alta competição, onde a margem de erro é mínima e a pressão é máxima para todos os contendores, especialmente os mais fortes. Não ser o primeiro não é um salvo-conduto para a vitória, mas um convite a redobrar o esforço.
O desafio da Seleção Brasileira para 2026 não está em ser a sexta no ranking, e sim em construir uma equipe que mereça a glória. Isso se faz com disciplina, com aprimoramento técnico e tático, com a superação das instabilidades e com a aceitação da realidade, por mais crua que ela se apresente. O “tabu” é uma ficção que pode confortar por um instante, mas é a realidade do campo que exige respostas, e é nela que o verdadeiro campeão se forja. A glória, afinal, é fruto de uma semeadura concreta, não de omens invertidos.
Fonte original: Diario de Pernambuco
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.