A imagem de uma quadra poliesportiva coberta, finalmente erguida sobre os anseios de uma comunidade escolar em Santo Antônio da Platina, é, em si, um bem concreto. A alegria dos 400 alunos do Colégio Estadual Tiradentes, que não mais precisam refazer as aulas de educação física dentro de salas em dias de chuva, é legítima e, sem dúvida, dignifica o esforço. Mas a narrativa que celebrou essa conquista, focando no desenho infantil que teria catalisado a obra após 14 anos de espera, mais do que um conto de fadas cívico, revela um paradoxo melancólico na gestão pública: o que deveria ser um direito sistematicamente garantido transforma-se em “sonho” dependente do acaso e do apelo emocional.
Não se pode negar o valor da escuta direta que uma Assembleia Itinerante proporciona. É um canal, certamente. Contudo, quando a concretização de uma infraestrutura básica, vital para a formação integral da juventude, leva mais de uma década para sair do papel e precisa de uma intervenção legislativa “fora da curva”, isso aponta para uma falha profunda na ordem institucional. A justiça social exige que a distribuição de bens públicos essenciais, como uma quadra escolar, seja pautada por critérios claros de necessidade e equidade, e não pela visibilidade de um caso particular ou pela força de um apelo.
O investimento de R$ 2,4 milhões numa única quadra, embora bem-vindo, levanta a questão da veracidade nos critérios de priorização. Quantas outras escolas do Paraná, com demandas igualmente urgentes ou talvez mais graves, permanecem esquecidas porque não tiveram um Thiago com um desenho sensível o suficiente para tocar os corações políticos? A subsidiariedade, princípio basilar da Doutrina Social da Igreja, nos ensina que as soluções devem surgir o mais próximo possível dos problemas. Mas essa proximidade é esmagada quando um problema local de 14 anos só encontra eco na esfera legislativa central, e não nos mecanismos ordinários de planejamento e execução.
Essa celebração do “desenho que virou realidade” pode, ironicamente, solidificar uma cultura de ineficiência, onde a gestão pública é vista como um sistema reativo a demandas anedóticas, e não como um organismo proativo de planejamento e entrega. O que deveria ser um dever contínuo do Estado — prover condições dignas para a educação — é, de repente, apresentado como um feito excepcional, uma espécie de milagre burocrático. A loucura lógica, como Chesterton bem notaria, é aplaudir a engenharia que conserta a fundação podre apenas quando um inocente ilustra o desastre.
O perigo reside em transformar o direito em privilégio mascarado de participação. É louvável que uma demanda estudantil tenha sido ouvida, mas o verdadeiro sinal de um governo sábio não é a capacidade de realizar um “sonho” pontual, mas de edificar um sistema que garanta que o acesso a uma quadra coberta, à segurança, ao saneamento básico ou a uma boa formação não seja um sonho, mas uma realidade garantida para todos. Isso exige transparência curricular, conselhos escola-família-comunidade que funcionem, e um orçamento por missão que traduza a responsabilidade em entregas contínuas e mensuráveis, e não em atos esporádicos de benevolência política.
A quadra está lá, um bem para os alunos de Santo Antônio da Platina. Mas a história de sua concretização nos desafia a olhar além do cimento e da cobertura. O verdadeiro triunfo da sociedade será quando a edificação de uma vida escolar digna deixar de depender da emoção de um desenho, e passar a ser o fruto inevitável de uma justiça aplicada com seriedade e constância, sem atalhos ou malabarismos publicitários.
Fonte original: Tribuna PR – Paraná Online
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.