A vitória eleitoral mais apertada, por vezes, é mais reveladora que o triunfo folgado. Ela desnuda, sem véus, as rachaduras subterrâneas de um corpo político, forçando-o a um exame de consciência tardio, mas urgente. É nesse cenário que o Partido dos Trabalhadores, após um embate eleitoral que quase custou-lhe o poder, mergulha numa discussão interna sobre reformulação, combate à corrupção e a complexa alquimia da união das esquerdas, enquanto se debate com o dilema de como se ver a si mesmo – se como uma máquina eleitoral implacável ou como um agente formulador de políticas para o país.
Duas grandes correntes agitam as águas do partido: a dominante “Partido que Muda o Brasil” e a opositora “Mensagem ao Partido”, que, ironicamente, ecoa diagnósticos de uma década atrás. Ambas convergem na necessidade de o PT ir além da função de mero cabo eleitoral, reconhecendo que opina pouco e assiste o governo agir como único formulador. Propõem um “revigorar”, como pontua seu presidente, mas rechaçam o “refundar”, indicando um limite tênue entre a maquiagem e a metamorfose. Paulo Teixeira, da Mensagem, resume o paradoxo ao admitir que a movimentação decorre de uma “leitura pragmática”, uma tentativa de dialogar não só com a base e a esquerda, mas com o centro, na busca por uma “narrativa de combate à corrupção”.
Essa convergência discursiva, impulsionada pela iminência da perda de poder, levanta uma pergunta incômoda sobre a veracidade da proposta. Seria um genuíno despertar para a necessidade de princípios mais firmes ou apenas uma adaptação tática, um esforço de gestão de imagem? O combate à corrupção, que agora prevê a expulsão de membros envolvidos em ilícitos, é uma medida bem-vinda, mas sua eficácia dependerá de uma aplicação imparcial e transparente, sem a sombra do oportunismo político. A tardança em adotar tais pautas, especialmente quando as críticas já ressoavam há anos, alimenta o ceticismo sobre a profundidade da mudança.
A tensão entre o partido e o poder executivo é outro nó górdio que exige desatar. A reação negativa da Presidente Dilma à declaração de Gilberto Carvalho, ou a observação perspicaz de um petista de que “faltou combinar com os russos” ao se referir à Presidente, sugere uma autonomia do governo que pode colidir com o desejo do partido de reassumir um papel estratégico. A Doutrina Social da Igreja, especialmente Pio XI, nos lembra que o Estado não pode se confundir com um único partido ou ideologia. Um partido, em seu papel de corpo intermediário, deve servir à vida comum, e não reduzir-se a um instrumento de perpetuação no poder, nem transformar-se numa “máquina” que esmaga a iniciativa e a livre associação. A verdadeira política não é estatolatria, nem partidolatria, mas o discernimento que busca a justiça e a ordem social.
A ambição de “unir as esquerdas” ao mesmo tempo em que se busca “diálogo com o centro” revela uma acrobacia que, para ser mais que retórica, exige magnanimidade. Uma grandeza de espírito capaz de transcender interesses meramente eleitorais e construir um projeto que sirva à nação de maneira substancial. Marco Aurélio Garcia toca num ponto crucial ao falar da necessidade de diálogo com aqueles que, beneficiados por políticas governamentais, não atribuem a melhora de vida ao partido, mas a si mesmos, à providência divina. É o que Chesterton, em seu paradoxo, talvez chamasse de a sanidade do povo diante da loucura lógica das ideologias que querem a todo custo capturar o mérito do real. A vida concreta dos cidadãos não se enquadra facilmente em narrativas partidárias.
Porque um partido que se arroga o direito de guiar uma nação não pode ser apenas uma máquina que calcula e manobra; ele deve ser uma promessa encarnada de retidão e grandeza, um farol de veracidade que orienta, e não um labirinto que ilude. A real reformulação não reside em ajustar engrenagens, mas em reorientar a alma política para a busca desinteressada de uma ordem justa, oferecendo um projeto de país que seja mais que a mera manutenção do poder.
Fonte original: Jornal de Brasília
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.