O pulso da vida política brasileira, já febril por tantas disputas passadas, acaba de receber uma dose concentrada de adrenalina. A resolução política do Partido dos Trabalhadores, que projeta as eleições de 2026 como um choque de “projetos profundamente distintos de nação”, não é uma mera análise descritiva da realidade, mas uma potente manobra retórica. Ela não apenas constata a polarização; ela a esculpe, definindo os termos do embate, predeterminando o campo de jogo e atribuindo papéis. O tabuleiro está montado, as peças em movimento, e a narrativa já foi escrita: de um lado, o progresso e a defesa dos oprimidos; do outro, a preservação de privilégios e o negacionismo.
É inegável que existem visões de mundo e de Estado distintas, às vezes antagônicas, sobre os rumos do Brasil. A discussão sobre investimentos em universidades, o fortalecimento do SUS, as políticas afirmativas ou a defesa do meio ambiente são pautas legítimas de qualquer debate democrático. No entanto, a forma como se articula essa diferença é a questão moral central. Quando um partido governista, de posse de uma plataforma institucional, simplifica a complexidade política em uma dicotomia de bem contra mal, o risco é o de sufocar a pluralidade inerente a uma sociedade viva e aprofundar divisões intransponíveis. Não se trata de uma polarização orgânica, mas de uma encenação estratégica para deslegitimar qualquer alternativa que não se alinhe à visão do poder estabelecido, como se houvesse apenas um caminho possível para a salvação nacional.
À luz da Doutrina Social da Igreja, o conceito de “projeto de nação” não pode ser sequestrado por um único grupo ou ideologia. São Tomás de Aquino nos ensina que o bem comum não é a soma dos interesses de uma facção, mas o conjunto de condições sociais que permite a todas as pessoas e grupos alcançar sua plena realização. O Papa Pio XII, em sua crítica à massificação, advertia para o perigo de reduzir o “povo”, com suas legítimas diferenças e aspirações, a uma mera “massa” manipulável por narrativas simplistas. Pio XI, por sua vez, na Quadragesimo Anno, alertava contra a estatolatria, a idolatria do Estado ou de um projeto estatal, que ignora a vitalidade dos corpos intermediários e a liberdade ordenada da sociedade civil. O maximalismo que considera seu próprio projeto como a única via para o “desenvolvimento, democracia e futuro do povo brasileiro” carrega consigo a semente da intolerância e o desrespeito pela legítima divergência.
A resolução do PT, ao citar o caso do Banco Master e questionar a atuação do Banco Central sob gestão anterior, ou ao associar figuras da oposição a investigações em andamento, transita perigosamente do debate de ideias para a tática de descredenciamento eleitoral. A defesa da autonomia das instituições de controle, afirmada pelo PT em seu governo, perde credibilidade quando a mesma autonomia é questionada seletivamente em gestões passadas ligadas a adversários políticos. A veracidade do discurso é posta à prova: a crítica é feita para o esclarecimento público ou para a capitalização política? Uma liderança política magnânima buscaria elevar o debate, exigir transparência e justiça, sem instrumentalizar fatos para o acirramento da disputa partidária.
A insistência de que uma maioria no Congresso “alinhada” ao partido é “condição fundamental” para governabilidade é um convite à reflexão sobre a natureza da democracia plural. Num sistema de freios e contrapesos, o papel da oposição não é apenas o de fiscalizar, mas o de oferecer alternativas, de desafiar o poder em nome de outros ângulos do bem comum. Reduzir essa função a um obstáculo ao “avanço” é subestimar a inteligência do eleitorado e a riqueza do diálogo democrático. A verdadeira estabilidade política reside na capacidade de construir pontes, de negociar e de reconhecer o legítimo espaço do outro, mesmo na divergência.
A polarização, quando fabricada e intensificada com o intuito primordial de mobilização eleitoral, acaba por empobrecer o horizonte moral e intelectual da nação. Ela não prepara o terreno para um diálogo construtivo sobre os complexos desafios que o Brasil enfrenta, mas sim para um confronto onde a verdade é a primeira vítima e o inimigo, antes político, torna-se existencial. A tarefa de uma classe política à altura de seu tempo não é a de acender fogueiras ideológicas que consomem a energia do país, mas a de pavimentar caminhos para que todos os cidadãos, em sua diversidade, possam contribuir para o destino comum.
O verdadeiro estadista, ciente do peso de suas palavras e da força de seu exemplo, sabe que a construção de uma nação duradoura exige mais do que a vitória de uma facção. Requer a coragem de reconhecer a legitimidade do adversário, a paciência de buscar o consenso e a humildade de entender que o futuro é sempre um projeto compartilhado, não um monopólio partidário.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.