Quando o sinal toca, mas as salas permanecem vazias, o eco dessa ausência ressoa mais fundo que o silêncio. Não é apenas uma interrupção burocrática; é a voz que se cala no lugar onde deveria brotar o conhecimento, é o tempo de infância que se esvai, irrecuperável. No Brasil, e em particular na Bahia e Feira de Santana, os dados do Ideb confirmam o diagnóstico: a educação pública, espinha dorsal de qualquer pretensão de futuro, agoniza sob o peso de defasagens históricas e, por vezes, de paralisações que prolongam a crise de aprendizagem. A legítima preocupação com os alunos e suas famílias, reféns de calendários truncados e conteúdo não ministrado, impõe-se como um dever de todos.
Contudo, reduzir a complexidade da greve docente a um mero “privilégio corporativo”, a um capricho de uma suposta “casta protegida”, é uma forma perigosa de simplificar o real. É uma inversão da sanidade, uma loucura lógica, como diria Chesterton, que acusa o doente da febre enquanto ignora o vírus que o consome. A própria pesquisa TALIS 2024, citada nos fatos, aponta o estresse, a sobrecarga de trabalho e a infraestrutura inadequada como fatores decisivos para a insatisfação do professorado. Não se trata de negar o impacto negativo das greves nos 47,1 milhões de matrículas da educação básica, mas de inquirir com honestidade as causas profundas que as motivam. O professor que se vê compelido a parar não é, em geral, um inimigo da sala de aula, mas um profissional que busca condições mínimas para exercer sua vocação.
A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, ensina que o salário justo não é uma benesse, mas um dever de justiça. Ele deve ser suficiente para sustentar o trabalhador e sua família, com dignidade. Da mesma forma, o direito à livre associação e, em última instância, à greve, quando exercido com responsabilidade e como último recurso, é um instrumento legítimo na busca por condições de trabalho justas. O Estado, por sua vez, tem o dever primário de prover uma educação de qualidade, mas também de garantir aos seus servidores um ambiente propício ao labor. Isso inclui negociação transparente, canais de diálogo eficazes e uma gestão que não transfira para a classe docente as mazelas de uma política fiscal irresponsável ou de um desinvestimento crônico.
A tentação de enquadrar o professor da rede pública como um burocrata indolente, enquanto a rede privada cresce, é um expediente fácil para desviar o olhar das falhas estruturais. O problema não é só o direito à greve, mas a ausência de mecanismos de mediação e de uma cultura institucional que valorize a educação como um bem comum irrenunciável. A criação de 1.500 vagas e o ajuste salarial em Feira de Santana, por exemplo, embora positivos, precisam ser avaliados não apenas em números absolutos, mas em sua capacidade real de atrair e reter talentos, considerando a complexidade da função e o custo de vida. A escola, afinal, é a primeira e mais fundamental célula de uma sociedade justa, anterior até mesmo ao Estado, como nos recorda Leão XIII. O povo, e não uma massa indiferenciada, são os estudantes que esperam o futuro.
A solução para a crise educacional exige mais do que a condenação fácil. Requer a justiça de um sistema que valorize seus educadores, a veracidade de um debate que reconheça as complexidades do cenário, e a caridade de políticas públicas que coloquem o bem do aluno no centro. É preciso fortalecer os conselhos escola-família-comunidade, assegurar transparência curricular e investir em institutos de virtude que formem integralmente o ser humano. É nesse solo fértil de direitos e deveres equilibrados, de diálogo e responsabilidade compartilhada, que a semente da educação florescerá e dará frutos que nenhuma greve, por mais longa que seja, poderá ceifar.
Fonte original: Jornal Grande Bahia (JGB)
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.