Há um momento em que o progresso científico, em seu afã de proteger, começa a desconfiar da própria natureza e, com isso, do homem. A recente diretriz da Sociedade Brasileira de Cardiologia, ao reclassificar o antes intocado “12 por 8” — o 120/80 mmHg que por gerações simbolizou a sanidade vascular — de “normal” para “pré-hipertensão”, anuncia uma nova era: a da saúde sob suspeita. Não se trata de negar a ciência que, com razão, aponta para riscos estatísticos em longo prazo; trata-se de discernir, com reta razão e prudência, se estamos, na busca pela perfeição orgânica, a criar um exército de doentes sem doença, ansiosos sem sintoma.
Ninguém, munido de bom senso e caridade, ousaria minimizar o flagelo da hipertensão arterial. É, de fato, um inimigo silencioso e implacável, principal fator de risco para infarto, AVC e insuficiência cardíaca, que corrói os vasos e a vitalidade sem alarde. A intenção de identificar precocemente quem caminha por um campo minado de fatores de risco — obesidade, diabetes, sedentarismo, tabagismo, estresse — e, com isso, incitar à mudança de estilo de vida, é um ato que se alinha com a virtude da vigilância e com o bem da pessoa humana. O tratamento, quando necessário, com suas diversas classes de medicamentos, é um dom da inteligência humana a serviço da vida. Até aqui, a luz da ciência, usada para o bem, é inegável e louvável.
Contudo, a prudência, virtude cardeal que nos leva a discernir o verdadeiro bem em cada circunstância e a escolher os meios adequados para alcançá-lo, exige um olhar mais amplo. Quando o limiar do “normal” se estica para abranger um espectro tão vasto da população, muitos se veem repentinamente convertidos em “pré-doentes”, num passe de caneta de uma comissão médica. Que custo psicológico isso impõe? Que ansiedade desnecessária se instaura em milhões que, até ontem, viviam em paz com sua pressão, agora taxados de “potenciais pacientes”? Chesterton nos alertaria para o paradoxo de uma sociedade que, ao se obcecar pela ausência de risco futuro, perde a serenidade do presente, esquecendo que viver é, por sua própria natureza, aventurar-se sob o risco da finitude.
Não menos grave é a questão do bem comum e da subsidiariedade. Uma expansão tão dramática da base de “pré-pacientes” inevitavelmente sobrecarregará sistemas de saúde já cambaleantes, como o SUS. A demanda por consultas, exames e monitoramento para indivíduos assintomáticos sem outros fatores de risco relevantes pode desviar recursos e atenção de quem, de fato, clama por intervenção urgente: os milhões de hipertensos estabelecidos, que já lutam contra a doença e a dificuldade de adesão ao tratamento. A autoridade legítima das entidades médicas é indubitável, mas ela deve ser exercida com vistas ao bem comum e à justiça distributiva, não criando uma “epidemia” de ansiedade que beneficia indiretamente uma indústria da doença e da vigilância constante.
São Tomás de Aquino nos recorda que o fim da medicina é a saúde, não a patologização de estados fisiológicos. A verdade sobre os riscos deve ser comunicada, sim, mas com caridade, sem que o medo se torne o principal motor da “prevenção”. A Doutrina Social da Igreja nos lembra da dignidade da pessoa humana, que não pode ser reduzida a um conjunto de números ou a uma variável em tabelas de risco. O homem é mais do que a soma de suas probabilidades de adoecer. Há uma diferença abyssal entre educar para uma vida virtuosa em hábitos saudáveis e classificar como “pré-doença” um estado que, para a vasta maioria dos indivíduos sem comorbidades, é apenas um ponto no contínuo da vida.
A verdadeira prevenção, aquela que honra a subsidiariedade e a responsabilidade pessoal, passa pela promoção de ambientes saudáveis, pela educação para a moderação no comer e no beber, pela valorização do movimento e pela busca da paz interior. É a virtude da temperança e da fortaleza que nos leva a abraçar um estilo de vida que honra o corpo como templo do Espírito, e não o receio paralisante de uma estatística. A medicina, em sua nobre missão, deve ser um instrumento para a liberdade e para o florescimento humano, não para a perpetuação de um estado de vigilância que, por vezes, confunde a saúde com a ausência absoluta de qualquer sombra de risco.
É imperioso que as diretrizes médicas se lembrem de que, na ânsia de proteger o homem do que há de vir, não se pode despojá-lo da paz do que já é. Quando o “normal” se torna uma categoria em risco, corremos o risco de transformar a vida num eterno pré-diagnóstico.
Fonte original: TNH1
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.