A fundação de um quartel, mais do que pedras e concreto, assenta-se sobre a honra, a lealdade e a promessa de serviço desinteressado à nação. Por isso, a notícia da aposentadoria forçada do General Randy George, 41º Chefe do Estado-Maior do Exército dos EUA, por decisão do Secretário da Guerra Pete Hegseth, ressoa como um golpe na coluna vertebral da instituição militar. Confirmada pelo próprio Pentágono, esta ação abrupta, somada a outras demissões de generais de alta patente, levanta questões que transcendem a mera gestão de pessoal e tocam a integridade da ordem pública.
Não se pode, é claro, negar ao comando civil a prerrogativa de alinhar a liderança militar com os objetivos estratégicos de uma administração. A renovação de quadros, a busca por uma nova performance ou a formação de uma equipe coesa são mecanismos legítimos para a implementação de uma agenda política e militar. Contudo, quando tais movimentos se dão sob o manto da opacidade, em meio a uma retórica política beligerante e a alegações não comprovadas de “fiascos”, a preocupação legítima com a politização das Forças Armadas se avoluma.
O que se exige, acima de tudo, é honestidade. A verdade é o oxigênio de qualquer instituição que pretenda servir à vida comum. Alegações de que o General George teria sido demitido por não apoiar o envio de tropas americanas ou por ser um bode expiatório para supostos fracassos militares – como sugerem algumas fontes – demandam clareza e transparência, não o silêncio lacônico de um comunicado de aposentadoria imediata. A retórica presidencial que promete reduzir adversários “à Idade da Pedra” e tomar seus recursos, embora não diretamente ligada à demissão, cria um ambiente de instrumentalização da força militar que corrói a distinção fundamental entre o interesse nacional e o cálculo político bruto.
Pio XII alertava para a diferença entre “povo” e “massa”, e a relevância de uma “ordem moral pública” que não se deixe esmagar por interesses particulares ou por um tecnocratismo desumano. Uma força armada, por sua natureza, é a garantia última dessa ordem. Sua liderança, treinada em West Point, forjada em conflitos como Iraque e Afeganistão, não pode ser tratada como peça descartável de um tabuleiro político. A justiça impõe que as decisões de tamanha envergadura sejam não apenas legais, mas moralmente justificáveis e compreensíveis à luz de critérios de mérito e serviço.
O risco é o de uma erosão da confiança. A sucessão de demissões de altos comandantes, sem justificativas transparentes e objetivas, pode minar a moral das tropas e comprometer a continuidade estratégica que tanto se preza em questões de segurança nacional. Uma instituição militar cuja lealdade é exigida em bases outras que a disciplina e a hierarquia, ou que se curva a agendas políticas imediatistas, perde seu fio de prumo. Deixa de ser um corpo profissional a serviço do Estado para se tornar um instrumento maleável nas mãos de grupos ou indivíduos.
A estabilidade e a integridade das Forças Armadas são pilares da vida comum de uma nação. Quando a liderança dedicada e a competência técnica são submetidas a critérios de lealdade política ou à necessidade de encontrar bodes expiatórios para reveses estratégicos, a nação inteira se fragiliza. O General George, como tantos outros, serviu por décadas. Reduzir sua trajetória a um mero “fiasco” ou à conveniência do momento é um gesto que ultraja não só o indivíduo, mas o próprio ideal de serviço que a farda representa.
Que se procure, portanto, não o caminho mais fácil da purga política, mas a senda reta do discernimento e da verdadeira honestidade, para que a espada da nação não corte o próprio tecido da confiança e da autoridade moral.
Fonte original: Hora do Povo
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.