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Polarização Política: Estratégia Eleitoral e o Risco de 2026

A estratégia política atual aposta na polarização e desqualificação para 2026, arriscando o tecido social. Artigo critica instrumentalização do Estado e defende governar para o bem comum.

🟢 Análise

O remo político, para ser eficaz, por vezes busca a corrente favorável, como observa o líder petista ao descrever a Paraíba como um “estado muito lulista”. Mas o mar da nação não se move apenas por correntes partidárias. Há profundezas onde as verdadeiras tarefas de governo se encontram com os deveres de uma política que não se dobra à lógica do espelho retrovisor, nem se satisfaz com a simples desqualificação do adversário. A estratégia eleitoral para 2026, delineada na recente entrevista, revela uma aposta em contrastes nítidos e polarizações que, se por um lado energizam a base, por outro correm o risco de obscurecer o horizonte e desidratar o tecido social.

A promessa de polarizar o debate entre “barbárie e civilização”, ou “democracia e autoritarismo”, pode soar a muitos como um apelo elevado. Contudo, na prática política, tal dicotomia simplifica uma realidade complexa e pode alienar justamente aqueles que se encontram no centro, alheios aos extremos, buscando soluções concretas para seus lares e comunidades. Ao invés de edificar um projeto de país que integre as diversas forças produtivas e sociais, a retórica do “nós contra eles” corre o perigo de reduzir o eleitorado a uma massa ideologicamente manipulável, em vez de reconhecer a rica pluralidade de um povo soberano, como adverte Pio XII. O governo, nesse cenário, é instado a governar para todos, e não apenas para aqueles que “remam a favor de sua maré”.

A atribuição unilateral da origem de casos de corrupção, como os do Banco Master e do INSS, à gestão anterior, é um ponto que exige veracidade. A oposição, naturalmente, apresenta uma contra-narrativa, e a capacidade do governo de influenciar a percepção pública sobre investigações, ao mesmo tempo em que controla os órgãos de fiscalização, levanta uma preocupação legítima sobre a lisura e a não-instrumentalização das instituições de Estado. A verdadeira honestidade intelectual demanda que os fatos sejam apresentados em sua inteireza, sem conveniência eleitoral, e que a responsabilidade seja apurada sem a seletividade que a política de partido muitas vezes impõe. A justiça não se faz por atalhos retóricos, mas pela apuração diligente e imparcial.

A estratégia de “desconstruir” adversários, como Flávio Bolsonaro, a ponto de “mirar torpedos no tempo certo e no lugar certo”, sugere uma campanha focada na demolição alheia. Há, contudo, um paradoxo aqui: a obsessão em desqualificar pode, inadvertidamente, conferir maior visibilidade ao oponente, permitindo-lhe refinar sua própria imagem de “moderado” e, assim, angariar a simpatia dos vitimizados. A arte da guerra cultural legítima, como sugerem os estudos recentes, exige humor inteligente, coerência estética e uma comunicação que, antes de destruir, construa verdades e apresente um projeto superior. Não se trata de blindar o oponente, mas de ter a magnanimidade de apresentar algo mais substancioso do que a simples negação.

O foco incessante na “herança do governo anterior” pode ser lido como uma tentativa de desviar o olhar dos desafios presentes e futuros. Embora seja dever do governo informar o que encontrou, e confrontar o que considera danoso, a insistência em viver do passado corre o risco de cansar o eleitorado que anseia por um futuro claro, por soluções pragmáticas e por um horizonte de esperança. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, reitera que a família e a sociedade são anteriores ao Estado, e que este existe para servir o bem comum, não para instrumentalizar a vida social a serviço de uma reeleição. A fronteira entre governar e fazer campanha não pode ser convenientemente desvanecida, sob pena de flertar com a estatolatria, tão criticada por Pio XI.

Pautas como a redução da jornada de trabalho e a regulamentação do trabalho por aplicativos são importantes, mas precisam transcender a promessa eleitoral para se tornar realidade concreta, com um caminho de aprovação e implementação crível. A proposta de criar duas secretarias no Ministério da Justiça – uma para combater a violência contra a mulher e outra para o crime organizado – é louvável, mas seu impacto depende de estruturação efetiva e de articulação com as já existentes iniciativas, como a PEC da Segurança. A capacidade de um governo se reeleger passa menos pela narrativa do “que pegou” e mais pelo “que entregou”, pelos frutos de seu labor e pela honestidade de suas intenções para com a nação como um todo.

O verdadeiro projeto de país não se constrói com torpedos direcionados ao adversário, mas com o esforço sincero de governar para o bem de todos. A tarefa política mais urgente é a de edificar pontes, e não de aprofundar abismos, reconhecendo a multiplicidade de visões e a complexidade dos problemas.

O futuro não se vence apenas com a força da maré favorável, mas com a reta razão que guia o timoneiro e a justiça que ele distribui a cada um.

Fonte original: O Globo

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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