O Delegado Francischini anunciou seu retorno à política em 2026, após seis anos longe das urnas e cinco anos depois de ter seu mandato cassado e declarado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Ele será candidato a deputado federal pela federação Renovação Solidária no Paraná, que será lançada oficialmente em 9 de março. O pleito de 2026 colocará Francischini em disputa com seu próprio filho, Felipe Francischini, que buscará a reeleição para deputado federal.
O político de direita assumirá a liderança da federação Renovação Solidária no estado, formada pelos partidos Solidariedade e Partido Renovação Democrática (PRD). Francischini relatou ter auxiliado na fundação do Solidariedade e afirmou que "a direita precisa ocupar outros partidos políticos, senão na hora da eleição nós só vamos ter o PL [Partido Liberal, de Jair Bolsonaro]". A meta da federação é lançar 31 candidatos a deputado federal e 55 a deputado estadual. A esposa de Francischini, Flávia Francischini, migrará para o Solidariedade para buscar a reeleição para deputada estadual, enquanto o filho Felipe se filiará ao Podemos.
A mudança de partidos afasta a família do senador Sergio Moro (União). Francischini indicou que apoiará localmente o nome a ser definido pelo governador Ratinho Júnior (PSD) para o governo do Paraná. Sobre o cenário nacional, ele mencionou a possibilidade de Ratinho Júnior ou Flávio Bolsonaro serem candidatos à presidência, com a decisão do governador esperada até o final de março. "Para nós, apoiar um governador do Paraná para presidente é importante, dá projeção ao estado", declarou Francischini. Ele descreveu sua cassação de 2020, quando obteve 427 mil votos, como "política" e injusta, ocorrendo "três anos depois da eleição com uma lei que não existia", e que foi citado como jurisprudência para a inelegibilidade de Bolsonaro.
A federação Renovação Solidária, que incluirá PTB e Patriota, atuará como um único partido político por quatro anos. Francischini, que se define como "da direita", prometeu oposição irrestrita a um eventual governo Lula, afirmando que "não há a mínima chance de composição". Ele também apresentou planos para combater o crime organizado, incluindo a proposta de "criar um presídio federal com 20 mil vagas no meio da selva amazônica". A entrevista com o político, publicada em 9 de março de 2026 pelo "Bem Paraná", detalha seu retorno e visões políticas.
O retorno de um político à cena, após sanções eleitorais, não deve ser interpretado apenas como um episódio individual, mas como um sintoma eloquente das patologias estruturais que corroem a democracia brasileira. A narrativa de um "retorno" e a disputa familiar por assentos parlamentares revelam como a política, muitas vezes, é transfigurada de um espaço de representação coletiva para um arranjo de poder oligárquico e, por vezes, hereditário, perpetuando o que Jessé Souza tão agudamente descreve como a dinâmica das elites brasileiras, que se revezam no controle das instituições. Este movimento de acomodação e realinhamento partidário, sob o pretexto de "ocupar outros partidos", mascara a fragilidade de um sistema que permite a contínua circulação dos mesmos agentes, mesmo após sanções que deveriam sinalizar a violação de normas éticas e legais, inserindo-se em um contexto mais amplo de judicialização da política que esvazia a deliberação pública.
A estratégia de reorganização partidária da direita, visando solidificar sua presença e garantir a "oposição irrestrita" a um governo eleito, expõe uma assimetria fundamental: a instrumentalização das instituições partidárias para a consolidação de blocos de poder, em detrimento de plataformas programáticas que visem a equidade e a democratização. A fala sobre a necessidade de "ocupar outros partidos" não reflete um debate ideológico genuíno, mas uma tática de ocupação de espaços que busca maximizar a representação de um grupo, sem necessariamente ampliar a participação popular ou diversificar o leque de interesses representados. A migração familiar entre legendas, em busca da reeleição e da manutenção do capital político, sublinha o caráter patrimonialista de certa política, onde o cargo público é visto como um bem a ser herdado ou disputado internamente, em vez de uma responsabilidade pública voltada ao coletivo.
Mais preocupante, contudo, é a proposta de "criar um presídio federal com 20 mil vagas no meio da selva amazônica", que revela uma profunda desconsideração pelos direitos fundamentais e pelas vulnerabilidades sociais. Como nos alerta Silvio Almeida, políticas punitivistas e de encarceramento em massa, especialmente em um país com as características do Brasil, historicamente servem para aprofundar desigualdades raciais e sociais, transformando o sistema penal em um mecanismo de gestão da pobreza e de exclusão. A Amazônia, região de vital importância ecológica e social, com populações indígenas e quilombolas que já enfrentam imensas pressões, não pode ser palco para soluções simplistas e violentas que negligenciam a complexidade do crime organizado e as raízes socioeconômicas da criminalidade. Tal medida, ao invés de combater o crime, corre o risco de criar novos bolsões de injustiça e violência, perpetuando um ciclo que desumaniza e marginaliza ainda mais.
Em contrapartida a essa visão, urge a construção de políticas públicas inclusivas que priorizem a redistribuição de oportunidades, o fortalecimento da educação e o investimento em desenvolvimento social e econômico equitativo. A democratização real da política exige o fim das dinâmicas oligárquicas, a valorização da participação popular e a formulação de estratégias de segurança pública que respeitem os direitos humanos e busquem as causas estruturais da violência, e não apenas seus sintomas. Isso implica em um modelo que promova justiça ambiental, proteção aos povos originários e uma visão de desenvolvimento sustentável para a Amazônia, longe de qualquer lógica punitiva ou extrativista. Somente assim poderemos construir uma sociedade verdadeiramente justa, em que a política seja um instrumento de emancipação e não de perpetuação de privilégios e desigualdades.
Política no Paraná: Virtude Pública e o Bem Comum na Democracia
A ebulição do cenário político paranaense, com figuras que regressam ao proscênio e realinhamentos partidários, oferece mais do que a crônica de um momento eleitoral; ela nos interpela a uma reflexão mais profunda sobre a finalidade da política e a natureza do bem comum. O retorno de um político outrora cassado, disputando espaço com o próprio filho, e a reconfiguração de alianças partidárias, enquanto geram notícias, devem ser lidos como um espelho das tensões que perpassam a alma de nossa democracia, desafiando-nos a inquirir sobre a virtude pública e os verdadeiros motores da ação política.
Política Paranaense: Entre o Poder e a Virtude Pública
É inegável que a preocupação com a solidez das instituições e a integridade do processo democrático ressoa com justeza no espírito cívico. A observação de que a política pode, por vezes, converter-se num arranjo de poder oligárquico, onde a circulação dos mesmos nomes, mesmo após sanções, levanta questões sobre a renovação e a genuína representatividade, é um lamento legítimo. Tal cenário, que se manifesta na busca por "ocupar outros partidos" ou na migração familiar entre legendas, sugere uma instrumentalização do sistema partidário que, se não balizada por princípios mais elevados, pode desviar-se do propósito de servir à polis, como bem alertou o pensamento clássico. O risco é que a paixão pela tomada do poder obscureça a prudência necessária para discernir os meios e os fins.
Além da Crítica: A Necessidade de um Discurso Moral Coerente
Contudo, a simples denúncia da patologia não é, por si só, a cura. Há um excesso no determinismo que vê na ação política apenas a perpetuação de estruturas opressoras, ou na mera oposição, a solução. O que se exige é uma visão que supere tanto o pragmatismo desprovido de princípios, quanto a idealização que ignora as contingências da vida pública. Como nos recorda Alasdair MacIntyre, a nossa era frequentemente carece de um discurso moral coerente, capaz de orientar a ação para um telos compartilhado, em vez de se perder em disputas sobre meras preferências individuais ou grupais. A política, para ser virtuosa, precisa de um horizonte de valores que transcenda o mero cálculo de forças.
O Bem Comum Segundo Aristóteles e São Tomás: Prudência na Ação Política
É neste ponto que a sabedoria perene de Aristóteles e São Tomás de Aquino se mostra indispensável. A política, em sua essência, é a arte de organizar a vida em sociedade para que todos os cidadãos possam florescer, isto é, alcançar o bem comum. Isso exige prudência (phrónesis) dos governantes e dos governados: a capacidade de deliberar bem sobre o que é bom e justo para a cidade, não apenas para um partido ou para uma família. A promessa de uma "oposição irrestrita", por mais compreensível que seja no calor da disputa, precisa ceder lugar a um ethos de responsabilidade que reconheça a necessidade de cooperação para os grandes desígnios nacionais, mesmo entre adversários.
Desafios Éticos e a Dignidade Humana: Análise de Propostas
A proposição de um "presídio federal com 20 mil vagas no meio da selva amazônica", por exemplo, deve ser examinada sob a ótica da dignidade da pessoa humana e da lei natural. Embora o combate ao crime organizado seja um imperativo do bem comum e da justiça, as soluções propostas não podem desconsiderar a humanidade de quem quer que seja, nem a intrínseca ligação entre a sociedade e o ambiente. Como ensina a Doutrina Social da Igreja, toda política de segurança deve procurar as raízes da criminalidade e promover a recuperação, sempre com a devida proporção e respeito pelos direitos fundamentais. A Amazônia, patrimônio vital, exige um olhar de integralidade que preserve suas comunidades e sua natureza, longe de usos que a convertam em mero depósito de problemas sociais.
Virtude Cívica e a Construção de uma Sociedade Justa
A superação do debate reside, portanto, não na busca por uma conciliação pífia, mas na elevação da discussão para o plano dos princípios. A verdadeira "ocupação de espaços políticos" é aquela que se faz com a presença de homens e mulheres virtuosos, capazes de colocar a serviço da nação sua inteligência e sua probidade, buscando soluções pautadas pela justiça, pela solidariedade e pela subsidiariedade. Não se trata de negar a importância da representação partidária ou da necessidade de fiscalizar o poder, mas de enxergar que tais mecanismos devem servir a um fim maior: a construção de uma sociedade mais justa e fraterna.
Assim, o anseio por um futuro mais digno para o Brasil exige de seus líderes e de seus cidadãos uma adesão renovada à razão reta e à virtude cívica. Somente ao enxergar o poder como um serviço e a política como a arte de perseguir o bem comum, e não como um arranjo para a manutenção de privilégios ou a mera satisfação de ideologias, poderemos transcender as tensões superficiais e edificar uma polis que seja, de fato, reflexo da dignidade de cada pessoa. É a primazia da moral sobre o cálculo, da prudência sobre a paixão, que nos guiará ao verdadeiro progresso.
Fonte original: Bem Paraná
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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