A paisagem de Minas Gerais, com seus vales e montanhas que parecem eternos, guarda histórias de ciclos e permanências, de rios que correm em leito perene, mesmo que suas águas se renovem. Na política, os fatos mostram um fenômeno semelhante: a influência duradoura de sobrenomes e famílias, que, de Marcelo Aro a Cleitinho Azevedo, de Pinheiro a Portela, articulam palanques e mobilizam eleitorados para as disputas de 2026. A presença de “dinastias históricas, grupos regionais consolidados e novos clãs em ascensão” não é uma novidade na vida pública mineira; é, antes, uma marca sedimentada na pedra de suas tradições.
Para muitos, essa persistência dos clãs e sobrenomes na política soa como um eco do patrimonialismo, uma sombra que obscurece a meritocracia e limita a renovação. Há uma preocupação legítima com a concentração excessiva de poder, com a dificuldade para novas lideranças sem capital político preexistente e com o risco de confundir o público e o privado, onde o cargo eletivo é visto como herança e não como serviço. É um questionamento válido sobre a amplitude da representação e a agilidade das pautas.
No entanto, há que se evitar o reducionismo ideológico que condena o fenômeno sem antes compreendê-lo em sua complexidade. O cientista político Carlos Ranulfo aponta uma chave: o capital político familiar pode funcionar como “elemento de identidade e mobilização do eleitorado” em um sistema partidário fragmentado e com estruturas frágeis. Em meio à volubilidade das siglas, o nome de uma família pode ser uma “marca eleitoral” que garante reconhecimento, experiência percebida e uma rede de apoio já testada. É, paradoxalmente, uma resposta funcional do “povo”, que muitas vezes busca a confiança do conhecido ante a incerteza do novo, mesmo que essa escolha seja, por vezes, mais reativa do que profundamente discernida.
Aqui, a doutrina social da Igreja nos lembra que a família é, por natureza, a sociedade primeira e fundamental, anterior ao próprio Estado. Sua existência e sua vitalidade são bens em si. Contudo, a vida pública não é um domínio privado a ser herdado ou negociado como um patrimônio. A justiça exige que o acesso aos cargos seja pautado pelo mérito e pela capacidade de serviço, e não pela força do sangue ou do sobrenome. A questão não é proibir a participação de quem tem parentes na política – o que seria uma forma de estatolatria, ignorando a primazia das sociedades naturais –, mas garantir que essa participação se dê em condições de equidade, sem transformar o serviço público em propriedade familiar.
A persistência de sobrenomes conhecidos impõe, portanto, um desafio à veracidade da própria competição política. É preciso que a comunicação seja clara e honesta, que os vínculos familiares sejam compreendidos não como um atalho inevitável, mas como uma circunstância que exige maior transparência. O problema não reside na existência da família, mas na tentação de oprimir a ascensão de outros talentos ou de cooptar os bens comuns para interesses particulares. Quando a “marca eleitoral” se sobrepõe à substância da proposta e à qualificação do candidato, a escolha do eleitor, antes um ato do “povo” discernindo, pode escorregar para a mera aceitação da “massa”, seduzida pelo familiar e pelo cômodo.
A verdadeira vitalidade de uma república não reside na mera continuidade de nomes, nem na interdição sumária de tradições. Ela se assenta na constante renovação do serviço, na elevação do debate público e na garantia de que a política seja um campo onde a competência, a honestidade e o compromisso com o bem comum prevaleçam, independentemente do sobrenome que se carrega. Não se trata de desraigar a árvore que cresceu, mas de assegurar que o solo da política continue fértil para que novas sementes germinem, e a cidade tenha a oferta de talentos que verdadeiramente merece.
Fonte original: Jornal Estado de Minas | Not�cias Online
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.