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EUA e Irã: Política Desorientada em Crise, Petróleo Dispara

A política dos EUA para o Irã, com alívio de sanções em plena guerra, é uma estratégia desorientada. Analisamos a incoerência, os impactos no petróleo e a falta de veracidade nas narrativas oficiais.

🟢 Análise

A cena que se desenha no cenário geopolítico do Oriente Médio é a de uma estratégia que, forçada pelas ondas da realidade, se vê obrigada a navegar contra a própria corrente. O aceno dos Estados Unidos ao alívio das sanções sobre o petróleo iraniano, em meio a uma guerra deflagrada sob pretextos vacilantes, não é sinal de pragmatismo virtuoso, mas de uma profunda e perigosa desorientação. A instabilidade dos mercados, com o barril de petróleo a desafiadores US$ 120 e o gás com alta de 35%, é uma preocupação legítima que atinge famílias e indústrias globalmente, mas a resposta apressada e contraditória apenas joga luz sobre um navio sem leme, cujos capitães parecem incertos quanto ao próprio destino.

O cerne do problema, antes mesmo das consequências econômicas, reside na veracidade. Quando um ex-diretor nacional de contraterrorismo, Joe Kent, classifica a alegação de “ameaça iminente” do Irã – justificativa central para o início do conflito – como “uma mentira”, a própria base moral da guerra se esvai como areia. Não se edifica uma ordem justa, quer interna, quer internacional, sobre a duna movediça da desinformação. A busca pela estabilidade econômica, por mais premente que seja, não pode servir de véu para encobrir a incoerência entre o discurso que deflagra e mantém a guerra e as manobras que tentam conter seus efeitos colaterais.

A conduta da Casa Branca, embora elogiada por Benjamin Netanyahu como “coordenada”, exibe uma notável falta de humildade perante os aliados e a realidade dos fatos. O presidente Trump, ao fazer piada com Pearl Harbor em resposta à questão sobre a falta de aviso prévio aos japoneses, e ao criticar a “ingratidão” de aliados da OTAN, tensiona as alianças que deveriam ser pilares da ordem global. Enquanto nações europeias e o Japão sofrem o impacto econômico direto da escalada no Oriente Médio, e são chamados a participar de operações de segurança, são tratados com desdém. A soberba de quem se arroga o direito de decidir unilateralmente, sem um plano claro ou objetivos de vitória definidos – como admitiu o próprio secretário de Defesa, Pete Hegseth, ao relutar em estipular um prazo ou metas para a vitória –, condena os povos à condição de massa, usada e descartada segundo conveniências táticas, na contramão do que Pio XII tão bem discerniu.

A incoerência se estende aos próprios objetivos declarados. Netanyahu lista a eliminação da capacidade nuclear e de mísseis do Irã, e a promoção da “mudança de regime”, como metas da ofensiva. Contudo, o alívio das sanções, por mais que vise estabilizar o mercado de petróleo, corre o risco de reverter a pressão econômica que se pretendia exercer e, paradoxalmente, realimentar um regime cujas ambições nucleares e militares são o alvo declarado. A controvérsia sobre o ataque ao campo de gás de South Pars — “só por Israel”, segundo Trump e Netanyahu, mas “conjunto”, segundo fontes israelenses à imprensa americana — apenas reforça a névoa de incerteza e a suspeita sobre a veracidade das narrativas oficiais.

O pedido do Pentágono por mais de US$ 200 bilhões para custear o conflito, sem uma estratégia clara ou um horizonte de conclusão, aponta para a irresponsabilidade de uma política que não calcula o preço da sua própria improvisação. O alívio das sanções, neste contexto, não é um gesto de magnanimidade ou de inteligência estratégica, mas uma concessão forçada pela pressão dos fatos, uma admissão tácita de que a estratégia de “pressão máxima” falhou em seus propósitos e tornou-se insustentável.

O que se impõe, portanto, não é um mero ajuste de rota, mas o reconhecimento de que a estabilidade do mundo se alicerça não na volatilidade dos mercados, mas na firmeza da verdade e na humildade das grandes potências. Somente assim a política externa poderá, finalmente, deixar de ser um mero vaivém de conveniências e reencontrar seu propósito moral.

Fonte original: Correio Braziliense

⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.

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