O cenário político, quando se desnuda de seus ornamentos ideológicos e discursos de palanque, revela-se, por vezes, um intrincado balcão de trocas. No Espírito Santo, o anúncio de apoio da federação União Progressista a Ricardo Ferraço para o governo, embora apresentado como uma costura “natural” para a governabilidade, oferece uma lente nítida para examinar as engrenagens que movem certas ambições. Ali se vê a dança dos cargos, a fluidez das lealdades partidárias e a instrumentalização de posições na administração pública, tudo sob o pretexto de forjar uma maioria necessária.
Os fatos são claros: o PP, um parceiro de longa data do governador Casagrande, foi destituído de sua liderança e, sob nova direção, aproximou-se do prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini. Seguiu-se então uma complexa negociação, envolvendo a exoneração de um secretário antigo e a nomeação de um novo, a garantia de apoio na Assembleia Legislativa, a busca por cadeiras na chapa federal e o assentimento para a continuidade de líderes partidários em posições-chave. A promessa de “colaboração” é, no fim das contas, a linguagem polida para uma barganha que envolve esferas decisivas da gestão estatal, da Assembleia ao Ministério Público, cujas chefias parecem ora blindadas, ora instrumentalizadas pelas conveniências do momento.
Não se nega a necessidade de articulações em um sistema multipartidário. A formação de coalizões, em tese, busca acomodar diferentes interesses para garantir a aprovação de projetos e a estabilidade política. É o melhor argumento daqueles que defendem tais arranjos: sem concessões, não há governabilidade. No entanto, o que vemos em casos como o capixaba não é a prudente construção de consensos em prol da sociedade, mas a sistemática subordinação do bem comum aos imperativos de manutenção e conquista do poder. Quando cargos públicos são tratados como moedas de troca, a justiça é a primeira a ser ferida, e a confiança da população na administração se esvai.
O Magistério da Igreja, em especial com Pio XI e Pio XII, oferece um baliza inestimável. Pio XI advertiu contra a “estatolatria”, a exaltação do Estado a um fim em si mesmo, que frequentemente se manifesta na apropriação do aparelho estatal por grupos políticos para seus próprios fins. A Doutrina Social da Igreja sempre defendeu a primazia do povo — uma comunidade orgânica de pessoas com direitos e deveres, unidas por um destino comum — sobre a massa — uma aglomeração amorfa e manipulável, vista apenas como eleitorado ou base de apoio. Quando a política se reduz a um jogo de cadeiras e favores, o cidadão é rebaixado de membro ativo do povo a mera variável na equação do poder, e a honestidade na gestão da coisa pública é substituída pela opacidade das negociações de bastidores.
A “loucura lógica” das ideologias pragmáticas, como diria Chesterton, nos faz crer que a ausência de princípios claros e a constante flutuação das alianças, que tratam o Estado como um espólio a ser partilhado, pode, de alguma forma, resultar em uma gestão eficiente e justa. É um paradoxo perigoso: busca-se a estabilidade do governo sacrificando a solidez dos seus fundamentos morais. A exoneração de secretários e a garantia de chefias em instituições como o Ministério Público, motivadas por acertos partidários e não por mérito ou avaliação de desempenho, demonstram a diluição das fronteiras entre o interesse público e o interesse partidário.
A pergunta incômoda que se impõe é: o que resta de princípios e valores para o eleitor, senão a percepção de que a política é um mero palco de interesses? A construção de uma sociedade justa e ordenada exige mais do que a simples soma de apoios eleitorais. Requer a virtude da justiça na distribuição dos encargos e benefícios, a transparência como dever fundamental, e uma inabalável veracidade na apresentação dos propósitos e dos meios. O verdadeiro serviço público não é o balão de ensaio para ambições pessoais, mas a dedicação incondicional à vida comum dos cidadãos.
A política, em sua vocação mais alta, não é a arte do escambo, mas a ciência da justiça que constrói uma vida digna para todos.
Fonte original: Folha Vitória
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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