O mundo político contemporâneo parece ter adotado a velocidade vertiginosa de uma correnteza que, em vez de edificar, se impõe pelo desbaste. Onde antes se contava em décadas a ascensão de um estadista — como o Giovanni Giolitti italiano ou o Friedrich Ebert alemão, que levaram vinte e tantos anos para consolidar sua influência —, hoje se vê a visibilidade pública de figuras como Kim Kataguiri em meros meses e a conquista de cadeiras legislativas em um punhado de anos. Essa vertigem, amplificada pela tecnologia de comunicação, dá a impressão de que a política se tornou um campo para “kamikazes” que, com artefatos improvisados, visam destruir as estruturas existentes para, então, tentar erguer algo novo sobre os escombros.
É preciso, contudo, discernir a raiz dessa impaciência e a retórica de demolição. É inegável a frustração legítima que muitos cidadãos sentem diante da corrupção endêmica, da burocracia paralisante e do distanciamento das instituições políticas e judiciais em relação às necessidades mais prementes da população. Quando o arcabouço da vida comum parece corroído por dentro, o clamor por uma “limpeza” ou uma “destruição do sistema” encontra eco. No entanto, a promessa de que a demolição trará automaticamente uma “nação verdadeira” é uma tentação perigosa, que pode levar a um vácuo de poder preenchido por novas formas de autoritarismo ou, pior, pelo caos. O princípio da subsidiariedade, tão caro à Doutrina Social da Igreja, nos ensina que a vitalidade política surge do fortalecimento dos corpos intermediários e da responsabilidade local, não da centralização ou da anarquia.
A tentação de traçar paralelos diretos entre esses movimentos contemporâneos e o fascismo histórico é um reducionismo que, se por um lado acende um alerta necessário contra derivações autoritárias, por outro pode desvirtuar o significado de um totalitarismo que se valeu da violência de Estado e da aniquilação do indivíduo. A veracidade nos impõe cautela. A ascensão meteórica de Mussolini e Hitler, sim, serve de aviso sobre a fragilidade das democracias frente a impulsos destrutivos. Mas o contexto, a escala da violência organizada e a ideologia subjacente de um regime totalitário são qualitativamente distintos da retórica de “destruição” de um sistema que, apesar de suas falhas, ainda permite a liberdade de expressão e a oposição. Rotular toda crítica enfática ao status quo como fascismo é empobrecer o debate e deslegitimar a vigilância cidadã sobre os poderes constituídos.
A metodologia de “interpelar adversários, provocar, aguardar reação violenta e transformar o conflito em conteúdo” expõe uma lógica onde a visibilidade é o bem supremo, e a política se torna um espetáculo. A “destruição” de Arthur do Val, sumariamente descartado após um áudio misógino, ilustra a volatilidade de um modelo onde a figura pública é descartável, um “kamikaze” treinado para arremeter, mas sem o lastro da verdade e da solidez moral que permite a retificação. Essa busca incessante por “engajamento” e viralização, desprovida de um compromisso com a justiça duradoura, converte a política em palco e as instituições em meros cenários para performances efêmeras. A Doutrina Social da Igreja, desde Leão XIII, defende uma liberdade ordenada, em que a expressão não se confunde com a licença para o escárnio ou a ofensa, e o exercício do poder, mesmo o informal, exige responsabilidade.
O clamor por “prender Alexandre de Moraes e Dias Toffoli”, ou o uso de um ministério para “censurar livros”, revelam que a retórica da “destruição do sistema” pode rapidamente degenerar em propostas que violam os mais básicos princípios da justiça e da ordem jurídica. Não se combate a suposta corrupção ou o ativismo judicial com a mera inversão dos papéis ou a imposição de uma nova forma de arbitrariedade. Pio XI, em sua crítica à estatolatria, advertia que o Estado, quando absolutizado, torna-se um fim em si mesmo, esmagando a liberdade. Essa advertência vale tanto para o poder excessivo de uma casta tecnocrática quanto para a pretensão de um movimento que busca demolir sem critérios, sob o pretexto de redenção nacional. A realeza social de Cristo, por contraste, nos lembra que toda autoridade deve servir, em humildade e justiça, ao destino transcendente do homem.
A tarefa de construir uma sociedade mais justa e uma ordem política mais íntegra não reside em desmantelar aleatoriamente, mas em edificar com paciência e método. Requer a virtude da fortaleza para enfrentar a resistência dos sistemas viciados, mas também a temperança para evitar o excesso e a caridade para reconhecer o legítimo no outro. A verdadeira reforma parte da honestidade em diagnosticar os males e da laboriosidade em propor soluções concretas que fortaleçam as instituições, tornando-as mais transparentes, responsáveis e alinhadas ao bem da cidade. Não se trata de blindar o poder de críticas, mas de distinguir entre a crítica construtiva e a mera destruição pela destruição.
Assim, o verdadeiro desafio não é encontrar um novo “kamikaze” para demolir os escombros, mas sim forjar os construtores que, com as ferramentas da razão, da ética e da fé, possam edificar uma casa comum sobre rocha firme, não sobre a areia movediça da visibilidade.
Fonte original: Brasil 247
⚖️ A Contradictio analisa as notícias à luz da tradição clássica e da Doutrina Social da Igreja. As fontes originais são citadas ao longo do texto.
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